terça-feira, 16 de julho de 2013

O Cristão e a Sociedade

John Stott - A Mensagem do Sermão do Monte

Os perseguidos por causa da justiça (Mt 5;10-12)

Pode parecer estranho que Jesus passasse dos pacificadores para a perseguição, da obra de reconciliação à experiência de hostili­dade. Mas, por mais que nos esforcemos em fazer a paz com determinadas pessoas, elas se recusam a viver em paz conosco. Nem todas as tentativas de reconciliação têm sucesso. Na ver­dade, alguns tomam a iniciativa de opor-se a nós e, particular­mente, de nos injuriar e perseguir. Não por causa de nossas fra­quezas ou idiossincrasias, mas "por causa da justiça" (v. 10) e "por minha causa" (v. 11), isto é, porque não gostam da justiça, da qual sentimos fome e sede (v. 6), e porque rejeitaram o Cristo que procuramos seguir. A perseguição é simplesmente o conflito entre dois sistemas de valores irreconciliáveis.

Como Jesus esperava que os seus discípulos reagissem diante da perseguição? O versículo 12 diz: Regozijai-vos e exultai! Não devemos nos vingar como o incrédulo, nem ficar de mau humor como uma criança, nem lamber nossas feridas em autopiedade como um cão, nem simplesmente sorrir e suportar tudo como um estóico, e muito menos fazer de conta que gostamos disso como um masoquista. Então, como agir? Devemos nos regozijar como um cristão, e até mesmo "pular de alegria"[1] Por quê? Em parte porque, Jesus acrescentou, é grande o vosso galardão nos céus (y. 12a). Podemos perder tudo aqui na terra, mas her­daremos tudo nos céus, não como uma recompensa meritória, mas porque "a promessa da recompensa é gratuita".[2] E, por outro lado, porque a perseguição é um sinal de genuinidade, um certificado da autenticidade cristã, pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós (v. 12b). Se somos perse­guidos hoje, pertencemos a uma nobre sucessão. Mas o motivo principal pelo qual deveríamos nos regozijar é porque estamos sofrendo, disse ele, por minha causa (v.) 11), por causa de nossa lealdade para com ele e para com os seus padrões de verdade e de justiça. Certamente os apóstolos aprenderam esta lição muito bem, pois, tendo sido açoitados pelo Sinédrio, "eles se retira­ram . . . regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afrontas por esse Nome".[3] Eles sabiam, assim como nós devemos saber, que "ferimentos e contusões são medalhas de honra"[4]

É importante notar que esta referência à perseguição é uma bem-aventurança como as demais. Na verdade, tem o privilégio de ser uma bem-aventurança dupla, pois Jesus primeiro decla­rou-a na terceira pessoa como as outras sete (Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, v. 10) e, então, repetiu-a na oração direta da segunda pessoa (Bem-aventurados sois quando . . . vos injuriarem e vos perseguirem . . ., v. 11). Con­siderando que todas as bem-aventuranças descrevem o que cada discípulo cristão deve ser, concluímos que a condição de ser desprezado e rejeitado, injuriado e perseguido, é um sinal do discipulado cristão, da mesma forma que um coração puro ou misericordioso. Cada cristão deve ser um pacificador, e cada cristão deve esperar oposição. Aqueles que têm fome de justiça sofrerão por causa da justiça que anseiam. Jesus disse que seria assim em qualquer lugar. Também o disseram seus apóstolos Pedro e Paulo.[5] Tem sido assim em todas as épocas. Não deve­remos nos surpreender se a hostilidade anticristã aumentar, mas, antes, se ela não existir. Precisamos nos lembrar do infor­túnio complementar registrado por Lucas: "Ai de vós, quando vos louvarem!"[6] A popularidade universal está para os falsos profetas, assim como a perseguição para os verdadeiros. Poucos homens deste século têm entendido melhor a inevitabilidade do sofrimento do que Dietrich Bonhoeffer. Ele parece nunca ter vacilado em seu antagonismo cristão contra o regime nazista, embora isto significasse prisão, ameaça de tortura, perigo para a sua própria família e, finalmente, morte. Ele foi executado por ordem direta de Heinrich Himmler, em abril de 1945, no campo de concentração de Flossenburg, a apenas poucos dias antes da libertação. Era o cumprimento do que ele sempre crera e ensinara: O sofrimento é, pois, a característica dos seguidores de Cristo. O discípulo não está acima do seu mestre. O discipulado é "passio passiva", é sofrimento obrigató­rio. Por isso também o Dr. M. Lutero incluiu o sofrimento no rol dos sinais da verdadeira Igreja. Um anteprojeto da Confissão de Augsburg definiu a Igreja como comunidade dos que são 'per­seguidos e martirizados por causa do Evangelho' ... O discipu­lado é união com Cristo sofredor. Por isso nada há de estranho no sofrimento do cristão, antes é graça, ê alegria."[7]

As bem-aventuranças pintam um retrato compreensivo do discípulo cristão. Primeiro, vemo-lo de joelhos diante de Deus, reconhecendo sua pobreza espiritual e chorando por causa dela. Isto o torna manso ou gentil em todos os seus relacionamentos, considerando que a honestidade o compele a permitir que os outros pensem dele aquilo que, diante de Deus, já confessou. Mas longe dele aquiescer em seu pecado, pois ele tem fome e sede de justiça; anseia crescer na graça e na bondade.

Vemo-lo, depois, junto aos outros, lá fora, na comunidade humana. Seu relacionamento com Deus não o faz fugir da socie­dade nem o isola do sofrimento do mundo. Pelo contrário, per­manece no meio deste, demonstrando misericórdia àqueles que foram golpeados pela adversidade e pelo pecado. Ele é transpa­rentemente sincero em todos os seus relacionamentos e procura desempenhar um papel tão construtivo como pacificador. Mas ninguém lhe agradece pelos esforços; antes, é hostilizado, inju­riado, insultado e perseguido por causa da justiça que defende e por causa do Cristo com o qual se identifica.

Tal é o homem ou a mulher que é "bem-aventurado", isto é, que tem a aprovação de Deus e alcança realização própria como ser humano.

Mas, nisso tudo, os valores e padrões de Jesus estão em con­flito direto com os valores e padrões comumente aceitos pelo mundo. O mundo considera bem-aventurados os ricos, não os pobres, tanto na esfera material como na espiritual; os des­preocupados e folgazões, não aqueles que consideram o mal com tanta seriedade que choram por causa dele; os fortes e impe­tuosos, não os mansos e gentis; os saciados, não os famintos; aqueles que cuidam de sua própria vida, não aqueles que se envolvem nos assuntos dos outros e se ocupam em fazer o bem, "demonstrando misericórdia" e "fazendo a paz"; aqueles que alcançam seus propósitos, mesmo apelando para meios escusos, e não os limpos de coração, que se recusam a comprometer sua integridade; aqueles que são confiantes e populares e que vivem sossegados, não aqueles que têm de sofrer perseguição.

Provavelmente ninguém odiou mais a "suavidade" do Sermão do Monte do que Friedrich Nietzsche. Embora sendo filho e neto de pastores luteranos, rejeitou o Cristianismo quando estu­dante. O seu livro, The Anti-Christ (O Anticristo, um título que ele ousou aplicar a si mesmo em seu esboço autobiográfico Ecce homo),[8] é a sua mais violenta polêmica, escrita em 1888, um ano antes de ficar louco. Nele, define como sendo "bom" "tudo o que eleva o sentimento de poder, a força de vontade, o poder propriamente dito no homem", considerando "mau" "tudo o que procede da fraqueza".[9] Conseqüentemente, em resposta à sua própria pergunta, "O que é mais prejudicial do que qual­quer vício?", ele responde: "Simpatia ativa pelo que é mal cons­tituído e fraco: o Cristianismo."[10] Ele considera o Cristianismo como uma religião de piedade e não uma religião de poder; por isso, "nada em nossa modernidade doentia é mais doentio do que a piedade cristã".[11] Ele despreza "o conceito cristão de Deus, Deus como espírito", um conceito do qual "tudo o que é forte, cora­joso, dominador, orgulhoso", foi eliminado.[12] "Em todo o Novo Testamento, só encontramos uma única figura solitária que é preciso respeitar", ele afirma, e esta é Pôncio Pilatos, o gover­nador romano.[13] Jesus, por outro lado, é desprezado como sendo o "Deus sobre a cruz", e o Cristianismo como "a maior das desgraças da humanidade".[14] A razão de sua malevolência está clara. O ideal que Jesus elogiou é a criancinha. Ele não deu apoio algum ao elogio do "super-homem" de Nietzsche. Por isso, este repudiou todo o sistema de valores de Jesus. "Eu condeno o Cris­tianismo", escreveu. "A igreja cristã não deixou nada intacto com sua depravação; transformou cada valor em um desvalor."[15] Ele, pelo contrário (nas últimas palavras do seu livro), convocou a uma "reavaliação de todos os valores".[16]

Mas Jesus não transigirá nos seus padrões para acomodar-se a Nietzsche, ou aos seus seguidores, ou a qualquer um de nós que possa, inconscientemente, ter assimilado traços ou partes da filosofia do poder de Nietzsche. Nas bem-aventuranças, Jesus apresenta um desafio fundamental ao mundo não-cristão e ao seu ponto de vista, e exige que seus discípulos adotem o seu sis­tema de valores, totalmente diferente. Como Thielicke disse, "qualquer pessoa que entre em comunhão com Jesus tem de passar por uma reavaliação de valores".[17]

Foi isto que Bonhoeffer (que, aliás, foi criado na mesma tra­dição luterana de Nietzsche) chamou de os "extraordinários" da vida cristã. "A cada nova bem-aventurança aprofunda-se o abismo entre os discípulos e o povo. A separação do discipulado torna-se cada vez mais evidente." Isso é particularmente óbvio na bênção dos que choram. Jesus está falando dos que "não sintonizam com o mundo, os que não podem equiparar-se ao mundo. Choram sobre o mundo, sua culpa, seu destino e sua sorte. Enquanto o mundo festeja, ficam à parte; enquanto o mundo chama: 'Gozai a vida!', os discípulos choram. Sabem que o navio festivamente engalanado já faz água. O mundo sonha com o progresso, com o poder, com o futuro — os discí­pulos sabem do fim, do juízo e da vinda do reino dos céus para o qual o mundo não está apto. Por esta razão são os discípulos estranhos ao mundo, hóspedes indesejáveis, perturbadores que são rejeitados."[18]

Tal inversão dos valores humanos é básica na religião bíblica. Os métodos do Deus das Escrituras parecem uma confusão para os homens, pois exaltam o humilde e humilham o orgulhoso; chamam de primeiros, os últimos, e de últimos, os primeiros; atribuem grandeza ao servo, despedem o rico de mãos vazias e declaram que os mansos serão seus herdeiros. A cultura do mundo e a contracultura de Cristo estão em total desarmonia uma com a outra. Resumindo, Jesus parabeniza aqueles que o mundo mais despreza, e chama de "bem-aventurados" aqueles que o mundo rejeita.
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[1] Lc 6:23.
[2] Calvino, p. 267
[3] At 5:41.
[4] Lenski, p. 197.
[5] Por exemplo Jo 15:18-25; 1 Pe4:13,14; At 14:22; 2 Tm 3:12.
[6] Lc 6:26.
[7] Bonhoeffer, p. 46
[8] Primeira edição 1895: Penguin Classics 1968.
[9] p.15.
[10] p. 116.
[11] pp. 118-119.
[12] pp. 127-128.
[13] p. 162.
[14] pp. 168ss
[15] p.186.
[16] p.187.
[17] p.77.
[18] pp. 58,59.

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