sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O Livre-Arbítrio

Esse texto é baseado no material pesquisado e no esboço elaborado para o estudo sobre o tema Livre-Arbítrio, na Congregação Presbiteriana do Jardim Eldorado em Porto Velho-RO, ministrado em 28 de julho e 11 de agosto de 2016.
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Há no homem alguma genuína liberdade de escolha? Somos meros bonecos no teatro de fantoches divino? O homem escolhe livremente entre o Bem e o Mal? Um mero sim ou não, seria insuficiente para responder essas perguntas. Há tantos detalhes, correlações, etc., impossível tratar tudo neste curto esboço que tem por alvo, apontar a compatibilidade (ou não) do livre-arbítrio com os ensinos bíblicos.

Livre-arbítrio é um conceito metafísico muito conhecido. Filmes, livros, desenhos aminados, fábulas infantis ou mesmo palestras motivacionais, abordam a vida na perspectiva: “você faz seu destino”, “suas escolhas definirão o seu futuro”, “tudo depende de você”, e assim, no senso comum, nenhuma certeza é mais vigorosa do que esta: “tenho liberdade de escolha, é a partir delas que se constrói o meu futuro”.

Essa ideia ampla tem desdobramento nas mais diversas áreas. Geralmente aparece relacionado a moralidade para justificar a responsabilidade humana. Na ciência, indo de discussões sobre indeterminismo e partículas quânticas (seja lá o que isso for) até análises da psique humana, na busca pela compreensão comportamental e nos estudos sociais. Considerando antropologicamente, livre-arbítrio nada mais é que a capacidade natural de escolher diversas opção moralmente iguais; a simples tomada de decisão; agir conforme à vontade ou razão[1].

O fato é, homens não são máquinas, que seguem simples comandos, e nem meros animais que agem por instinto; são mais (normalmente) que débeis, bestas, bruto ou maníacos. Tomam decisões seguindo a própria vontade, muitas vezes contrariando o bom-senso, instintos de preservação ou emoções e sentimentos fortíssimos como medo, honra ou paixão. E por mais que a sociologia ou a psicologia tente padronizar o comportamento humano e reduzi-lo a ‘equações’ estáticas, na vida comum, no dia a dia – para além de teste simplistas em situações artificias, controladas e obtusas – tudo tende a um personalismo praticamente indeterminado (segundo nossa perspectiva finita e temporal).

Mas como fica quando transita para a teologia? Esse assunto é um verdadeiro “nó górdio[2]”. A bem da verdade o termo “livre-arbítrio” não aparece nas páginas da Bíblia Sagrada. Mas essa capacidade de agir por si mesmo, seguir a própria vontade, ao contrário do que se afirma costumeiramente, não é questionada pela Teologia Cristã genuinamente bíblica. O calvinismo ou a cosmovisão cristã reformada, apenas redimensiona – realisticamente – a força ou efetividade desse conceito. Inclusive parte da academia reformada mais recentemente têm usado[3] livre-agência, para tratar dessa capacidade de livre escolha. Falando simplistamente essa é uma solução semântica, ou seja, não é uma proposta fundamentalmente nova ou diferente para tratar a autodeterminação natural dos entes morais.

Definido então livre-arbítrio (livre-agência) – em termos gerais – como a capacidade agir de acordo com a própria natureza[4], as dificuldades facilmente se desfazem, sem apelar ao paradoxo ou ao mistério, sem negar a responsabilidade humana ou livre-agência e obviamente sem fraudar a soberania divina exaustiva. Ao observar o capítulo IX da CFW[5] percebe-se que essa solução funciona:

1) Criação:
Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado para o bem ou para o mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza. O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder[6].
Adão foi criado ser moral. Capaz de fazer escolhas livres e conscientes, mais que isso, foi dotado de uma natureza sem inclinações que suplantassem sua vontade, quer para o certo quer para o errado. Diferentemente dos demônios que só fazem o mal, e dos anjos que obedecem a Deus, naturalmente o homem podia, sem impedimentos ou compulsões, agir bem ou mal, na prática, obedecer a Deus ou pecar.

Não obstante alguém poderia argumentar: Deus criou tudo bom e assim o homem ao pecar agiu contra a sua natureza (boa), mas ali em Gênesis o sentido de “viu Deus que tudo era bom” é de exatidão – aquilo que é exatamente o que deve ser – doutra feita, sendo a natureza humana comunicada da natureza divina, nada mais óbvio que no homem haver um grau de liberdade e autodeterminação. Assim, ao optar livremente por desobedecer, aceitando a indicação da Serpente, não houve, na decisão (não dar ouvido a ordem de Deus) que levou a Queda, ação contra a natureza!

2) Queda:
O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso[7].
Ao cair de sua inocência inicial, morrer espiritualmente – fruto do Pecado – o ser humano perdeu essa capacidade de livre escolha para o Bem (espiritual). Seu coração, vontade, natureza mudou, agora é naturalmente inclinado para o Mal. A desobediência tornou-se o padrão da conduta. Sua indisposição a Deus o impede de agir corretamente. Tudo quanto faz é essencialmente mau. Logo por sua natureza (espiritualmente) morta, o homem não pode receber, aceitar ou obedecer a Deus. E se não houver uma mudança profunda, uma transformação, uma alteração radical no homem, ele nada pode fazer para o Bem.

3) Redenção:
Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta da sua natural escravidão ao pecado e, somente pela sua graça, o habilita a querer e fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que, por causa da corrupção, ainda nele existente, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau[8].
Transformado, vivificado, nova criatura, nova natureza, Vida dada pelo Espírito Santo, adotado como filho de Deus, capaz de crer e obedecer a Deus, tem a vontade para o Bem (espiritualmente certo) restaurada; é agora capaz de crer em Deus e em suas promessas, isso é, agir conforme essa fé (viver pela fé), ser diligente em sua santificação e submisso a Vontade Santa.

Entretanto os efeitos da Queda – como diriam alguns, a podridão da morte do homem natural ainda permeia essa vida – o pecado ainda é uma ocorrência real na vida desse homem ressuscitado em Cristo. Assim sua vida ocorre sobre a influência de duas forças contrárias: a carne, velho homem vendido com escravo ao Pecado[9], natureza pecaminosa, que não foi totalmente extirpada ainda e o Espírito que fala na Palavra.

Daí temos que a Carne milita contra o Espírito no homem, e não no mundo. Afinal ninguém é tentado por outra coisa que não por suas próprias paixões.

4) Consumação:
É no estado de glória que a vontade do homem se torna perfeita e imutavelmente livre para o bem só[10].
Na consumação dos tempos, quando Cristo em Majestade e Glória reunir todos os seus, e transformar a corruptibilidade em eterna e perfeita comunhão consigo mesmo, o eleito não perderá sua liberdade de vontade, mas sua natureza será tão mudada e seu coração tão fiel que sua única vontade será fazer tudo conforme a Vontade do Pai. Não será por compulsão ou como autômato, mas a mais profunda liberdade para o Bem, o Bom, o Certo. Cumprindo assim a predeterminação que afirma o apóstolo Paulo: sermos a imagem de Cristo (Rm 8;28). Liberdade perfeita!

Conclui-se que livre-agência é uma característica dada por Deus ao homem, criado à sua imagem e semelhança, para que possa, dentro dos limites existenciais, naturais e sociais, expressar-se como ser humano, um ser moral distinto dos animais. Entretanto esta capacidade, está prejudicada atualmente, efeito do Pecado, da morte espiritual.

Já não há liberdade efetiva, pois um dos caminhos diversos foi impedido, e não só exteriormente (Gn 3;24), mas também por morte da boa vontade (Gn 2;17 e Rm 3;10); O homem natural já não procura o bem, nem mesmo o reconhece! Livremente faz aquilo que lhe é natural, escolhe apenas a forma como vai desobedecer. E como escreveu Heinrich Bullinger "... a vontade, que era livre, tornou-se uma vontade escrava. Agora ela serve ao pecado, não involuntária mas voluntariamente. Tanto é assim que o seu nome é “vontade”; não é “relutância”[11].

O homem morto em seus pecados não tem vontade para aquilo que é divino; logo não pode decidir fazer o que é espiritualmente bom. Sabendo que crer no Evangelho é algo bom, que produz bondade, que é segundo o conselho divino, ao ouvir o Evangelho, o homem natural não tem vontade de obedecer (crer) esse Evangelho, pois está indisposto (morto) para Deus.

Naturalmente o homem rejeitará a Graça anunciada (o perdão dos pecados em Cristo). Por si só, porque morto, incapaz de agir de acordo com a justiça divina, permanecerá rejeitando a Graça todas as vezes que está lhe for anunciada. E se nada mudar a condição do homem natural (espiritualmente morto), sua rejeição será para a condenação eterna. Por que a “condição moral do coração determina o ato da vontade, mas o ato da vontade, não pode mudar a condição moral do coração”[12].

E mais no que “depende, no todo ou em parte, para sua aceitação diante de Deus, e para sua justificação diante de Seus olhos, seja o que for, em que você descansa, e confia, para a obtenção de graça ou glória; se for algo menos do que Deus em Cristo, você é um idólatra...”[13]. Ou seja, confiar em si mesmo, no poder de decisão natural do ser humano, torna este ainda mais culpado diante de Deus; “o Livre-Arbítrio foi suficiente para levar Adão para longe de Deus, mas nunca foi capaz de trazê-lo de volta”.

Havendo então a renovação da Graça (ação do Espírito Santo), o homem é habilitado (novamente) para o bem. O homem que antes morto, revive, se instala uma nova natureza capaz de desejar obedecer a Deus. Essa nova natureza, produzirá frutos: a sede pela verdade divina, a fome pela justiça divina, a busca pela vontade divina! Será compatível com a santificação sem a qual ninguém verá a Deus consumada plenamente na morada eterna.

E como bem nos lembra Calvino[14], “Agostinho trata desta questão muito bem, e, como todas as demais, a resolve muito atinadamente, dizendo:”
“...Deus, que é Senhor de todas as coisas, e que a todas criou boas, e previu que o mal surgiria do bom, e soube que a sua onipotente bondade lhe convinha mais converter o mal em bem do que não permitir que o mal existisse, ordenou de tal maneira a vida dos anjos e dos homens que primeiro quis mostrar as forças do livre-arbítrio, e depois o que podia o benefício de sua graça e justo juízo”.
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[1] No sentido de mente, como um todo.
[2] Metáfora comumente usada para um problema insolúvel (desatando um nó impossível) resolvido facilmente.
[3] O uso me parece certo
, entretanto é inegável que a maioria dos teólogos e comentaristas renomados mais antigos usam livre-arbítrio e não livre-agência.
[4] Há certa definição de livre-arbítrio como a capacidade de decidir contra a própria natureza. Esta acepção além de errática e inútil, é biblicamente impossível: Errática – como agir de maneira contrária ao, necessariamente, natural ou ontológico? Qualquer ação assim seria uma sobreposição de uma natureza, que mudada, logo, agiu de modo natural a sua (nova) natureza. Inútil – pois serve apenas para provar uma nulidade; tal coisa não acontece. Indo ao absurdo é como esperar que Deus aja diabolicamente ou que o Diabo aja com a qualidade da benesse divina. Biblicamente impossível – Deus não pode mentir, isso não lhe é natural (2 Tm 2;13), mas alguém duvida que Deus tem livre juízo e autodeterminação?
[5] A escolha da CFW como modelo, põe fim a uma eventual acusação que o tema não é tratado pelos reformados do modo como apresento; sela a certeza da manutenção da confessionalidade calvinista afinal é a mais completa e aceita Confissão Reformada, depurada e consoantes com as outras expressões; o que se provado nela, em geral, de forma convincente, pode se afirmar como cosmovisão reformada.
[6] Do Livre Arbítrio, cap. IX, I e II.
[7] Do Livre Arbítrio, cap. IX, III.
[8] Do Livre Arbítrio, cap. IX, IV.
[9] Carne já liberta mais ainda aleijada, manca e mal-acostumada ao vício do pecado.
[10] Do Livre Arbítrio, cap. IX, V.
[11] Segunda Confissão Helvética, IX, 2.
[12] A. A. Hodge – CFW Comentada, pág 225.
[13] A. M. Toplady – Contra o Arminianismo e Seu Ídolo Dourado, o Livre-Arbítrio, pág 3.
[14] Institutas da Religião Cristã, UMESP, pág 409.

sábado, 23 de julho de 2016

O Ofício Feminino


Este artigo foi baseado no estudo apresentado na Congregação Presbiteriana do Jardim Eldorado em Porto Velho - RO em 22 de julho de 2016.


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Numa rápida pesquisa verifica-se que desde meados do séc. XX, mesmo que poucas, começou-se a ordenar mulheres ao sagrado ministério; já em 1948 a Igreja da Dinamarca, de teologia luterana, teve a sua primeira mulher-padre. A Igreja da Suécia (também luterana) que ordena mulheres desde 1958, tem desde 2013 uma arcebispa (Antje Jackelén). Especialmente depois da revolução sexual americana dos anos 1960, há pressões crescentes para que elas exerçam TODAS as atividades tradicionalmente masculinas. A igreja obviamente não está imune a isso, tanto que muitas mulheres estão sendo ordenadas em ofícios eclesiásticos. Embora igrejas de matriz Romana (e similares) ou as protestantes mais conservadoras, ainda não ordenem mulheres, no Brasil, grupos históricos de pentecostais, batistas e metodistas, já tem em seus quadros pastorais, mulheres ministras e dentro do movimento neo-pentecostal já há muitas pastoras, bispas e até apóstolas, algumas inclusive famosas.

Ficam as perguntas:
Mulheres podem pastorear? É correto elas pregarem? Qual o papel feminino na Igreja? Responder essas perguntas é o alvo desse estudo. Seria isso um problema, um erro, uma heresia? Mulher pode ser pastora? O caso é apenas com o título ou mesmo extra-oficialmente uma mulher ministrar (oficiar, servir, atuar como pastor – pregar, orar, ensinar, dirigir culto e etc.) está errado? No que essas questões interferem na vida prática da igreja? Que doutrina, dogma, entendimento ou tese teológica trata desse assunto?

Numa discussão sobre o assunto normalmente os defensores usam três linhas de argumentação:

1) eventuais textos bíblicos de mulheres na liderança;
2) a falta de regulamentação bíblica sobre o assunto;
3) a culpa é do machismo.

Está última é a mais fácil de desmontar, afinal, Deus não é movido por paixões humanas, não está sujeito aos caprichos de gente. Se a Bíblia é a Palavra de Deus, a Verdade, e se Deus é o Senhor, como afirma sua Palavra, então esse argumento deve ser totalmente descartado. A Palavra de Deus jamais seria afetada por vontade humana e por isso obviamente tal assertiva também deve ser ignorada me relação os escritores da Bíblia, pois foram “santos homens que falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”.

Resta analisar as tais passagens onde mulheres são líderes e verificar a conexão – ou falta dela – com o ofício pastoral. E depois avaliar as definições bíblicas desse ofício, se há a possibilidade dessa ordenação feminina:

Textos Bíblicos que atestam a liderança feminina:
Normalmente o primeiro grupo de textos apresentado para provar a liderança feminina na Bíblia, é aquele em que aparece as profetisas. Esse termo, (נְבִיאָה - neviah ou nebeyah e προφητις – profetis, em hebraico e em grego respectivamente), originalmente é o feminino de profeta e significa porta-voz, orador(a), profeta(iza). Ou seja, alguém que falava, fazia uso da oratória, anunciava algo ou mesmo dava um recado, poderia naturalmente ser chamado de nabiy (profeta, quem profere)! Especialistas apontam 3 significados para “profetisa” no Texto Sagrado: quem traz profecias, esposa de profeta e quem conduz (ou compunha) os louvores (cântico) feminino.

Só aparece oito vezes em toda a Bíblias. Nas duas ocasiões do NT – uma é para Ana, senhora idosa que servia diariamente no templo; pouco se sabe dela, provavelmente Lucas usa o termo como um elogio pela piedade, a outra, é uma falsa profetisa condenada em Apocalipse*, que certamente não serve para o caso. No VT há seis ocorrências – Uma referente a mulher de Isaías[i], uma a Noadia[ii] (falsa profeta) – não comentarei – uma referente a Míriã, outra a Débora e duas a Hulda.

Miriã - Ex 15:20 - A profetisa Miriã, irmã de Arão, tomou um tamborim, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamborins e com danças. Nesse caso específico, fica claro pelo contexto imediato que a ocorrência tinha mais a ver mais com alguém conduzindo as músicas, talvez uma dirigente de canto, quem conduzia outras mulheres nos louvores, que com alguma função especificamente profética. Observe que não há nenhuma profecia associada a Miriã. Desse mesmo modo podemos pensar na profetisa Débora, que foi juíza em Israel (capítulo 5 de Juízes). Sem sombra de dúvidas ela falava (proferia...) a Nação do alto de seu cargo de magistrada civil. Ela corajosamente se envolveu em assuntos militares, entretanto não há registro de alguma profecia (no sentido clássico) vinda por ela, mas interessantemente ela também cantou sua vitória, depois do fato. Então temos Hulda (2Rs 22:14 e 2Cr 34:22), que diferentemente vemos com clareza: ela profetizava, trazia palavras do Senhor.

Note que destes oito usos de “profetisa”, duas referências são ruins, quatro são diversas (cantora, esposa de profeta, e honraria, estão ligadas à outras acepções do termo) sobrando 2 outras referências para uma mulher, Hulda, que sem dúvida alguma era profetisa no modo desejado para a argumentação. Perceba a desproporção, há mais de 420 ocorrências do termo profeta (masculino) na Bíblia, apenas uma vez “profetisa” é usada no sentido de quem declara o desígnio de Deus! Entretanto, essa profetisa nada falou acerca do Messias, nem exerceu ofício profético e nem foi lembrada pelos apóstolos. O autor de Hebreus[iii] lembra até de Baraque mas não de Débora. Citou Sara, por ser mãe, Raabe, por ter traído seu próprio povo, por temor ao Senhor. E que mulheres (provavelmente esposas) receberam seus entes ressuscitados, mas nenhuma letra da profetisa (no melhor do termo) do VT, provando que não “tem nada contra as mulheres”, mas nada fala de alguma profetisa!

Outro possível texto está em At 21;9, as filhas de Felipe; mas se elas eram alguma autoridade, ou traziam instruções do Senhor sobre a Igreja porque quando Deus quer falar com um de seus apóstolos, Ele leva um profeta de outro lugar, embora estivessem ali 4 jovens que profetizavam? Mas se elas eram apenas dirigente do contracanto feminino, a situação fica absolutamente clara! O que bem pode oferece uma boa explicação para a profecia de Joel[iv].

Pode parecer ridículo usar Gn 29:9 “Falava-lhes ainda, quando chegou Raquel com as ovelhas de seu pai; porque era pastora” para validar a liderança das mulheres na igreja, mas há gente – líderes e estudiosos (?) – que tenta ir por essa via... analisemos então o caso de Raquel: não precisamos de grandes esforços para demonstra que ali era um trabalho secular que em nada se liga ao ofício eclesiástico. Era um costume da época mulheres cuidarem de rebanhos. Zípora[v] esposa de Moisés apascentou junto com suas irmãs, as ovelhas do pai; Rebeca[vi] parece que apascentava ovelhas, conjuntamente a outras jovens de sua época. Entretanto esse fato, diferentemente de servir de prova para a tese, ou mesmo de um exemplo bíblico de liderança feminina, esboça o contrário: mulheres trabalhavam – o tal machismo na Bíblia cai, já, aí! Veja, não tem nada a ver com cultura, afinal mulheres podiam pastorear animais. Isso não é pouca coisa, era administrar bens preciosos, especialmente numa cultura basicamente agropecuária, mesmo assim não há uma só referência delas administrarem algo divino ou cúltico em toda a Escritura Sagrada.

Outras histórias menos diretas também, às vezes, são apresentadas para justificar a liderança feminina no contexto eclesiástico. É o caso da Rainha Ester[vii]. Mas antes de pensar que ela é um exemplo de “feminismo” na Bíblia é bom notar duas coisas: primeiro - Ester era escrava, havia sido forçada a casar com o rei; segundo: tudo que ela consegue é por submissão ao marido, e não com a autoridade real! De igual modo lembram da mulher samaritana que se encontra com Jesus no poço de Jacó (João 4). Que ela apontou aqueles homens para Cristo, não há dúvidas, mas daí a concluir que ela pode ser um exemplo ou argumento a favor do ministério pastoral feminino, chega a ser bobo! Ela nem tinha entendido o Evangelho, nem se submetido a Cristo como seu salvador; a narrativa de Lucas demonstra que ela mal alimentava uma fé “naquele homem”... Um terceiro caso é o das mulheres na ressurreição de Jesus[viii]. Elas serem as primeiras a receberem a notícia e até a verem Cristo ressurreto demonstra o carinho de Jesus por elas? Talvez! Inverte a valorização social vigente; realmente vai contra o tal machismo? Quem sabe! Mas em nada toca no ofício pastoral ou aponta autoridade religiosa. O fato é: enquanto elas estavam, de madrugada, indo servir a memória de Jesus, submissas, atendendo aos afazeres comuns de mulheres, Ele se dá a conhecer! Precisa ser mais claro que isso?

Textos Bíblicos que definem o ministério pastoral (ofício eclesiástico):
E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres (Ef 4;11). Deus estabeleceu os pastores para a Igreja; é Ele quem institui esse ofício. Então, Ele diz como deve ser. Note que o apóstolo usa os termos "pastores e mestres" (termos – masculinos! – no plural, o que impede o entendimento dessa passagem se referindo exclusivamente a Pedro[ix]) exaurindo todas as possibilidades de atuação, seja o cuidado paternal, seja o cuidado professoral, na igreja – os termos acabam remetendo ao ofício dado por Deus a Adão, o homem (cuidar e cultivar; Gn 2;16) no Éden antes mesmo da criação da mulher, que só mais tarde foi criada como auxiliadora; isso é, o ofício pastoral eclesiástico está restrito aos homens, ao macho. Coisa que se encaixa perfeitamente com Tito 1;6 (...marido de uma só mulher...) ou Timóteo 3,2 (...esposo de uma só mulher...) – onde mais uma vez o apóstolo diz que homens devem estar a frente da igreja – bem como com 1Tm 2:12 (E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio.)... nem precisa explicar!

Concluindo:
O ofício pastoral na Igreja está em contraposição ao sacerdócio no VT que acabou porque Cristo iniciou um outro sacerdócio (leia Hebreus 7). Essa função pastoral é o ofício dos dirigentes da Igreja. O termo pastor é em alusão a condução e cuidado do rebanho, que o próprio Jesus chamou de suas ovelhas. Em toda a Palavra se verifica que homens são os líderes do Povo de Deus (sua Igreja). Desde Adão é assim, e será assim até o fim... Toda a Bíblia expõe a veracidade desse entendimento: mulheres (esposa) desde o Éden são vocacionadas para serem auxiliares dos homens (maridos).

É fácil notar, não há uma única sacerdotisa (da religião de Deus, claro) na Bíblia – isso diz muito sobre o ofício feminino. O simples fato de Cristo ter escolhido 12 homens para serem os fundadores Cristianismo (Ap 21;14) é outro demonstrativo disso. E mais, esses apóstolos nunca indicaram a possibilidade de mulheres estarem à frente, conduzindo a Igreja! Nenhum dos (cerca de) 40 autores da Bíblia era mulher. A única mulher que “dirigiu” (na verdade julgou) a nação de Israel foi Débora (num contexto de irresponsabilidade masculina). E mais, foi exatamente na primeira ocasião que uma mulher “ministrou” no lugar de um homem, que o Pecado entrou na História (Gn 3).

Quando Paulo afirma que o Espírito selecionou uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outro para pastores e mestres, ele claramente delimitou esses 4 ofícios aos homens, não há espaço aí para mulheres. Ora, se mulher não pode exercer autoridade de homem, e administração dos trabalhos da Igreja são funções restrita a eles, logo, mulheres não devem supervisionar[x] as causas do Evangelho.

As pastoras de ovelhas servirem de exemplo para permitir mulheres pastoreando a Igreja é como levar porcos no lugar de cordeiros para sacrifício ao SENHOR, só porque se fazia esse tipo de sacrifícios a outros deuses. Em outras palavras, é a própria expressão de abominação, isso é, fazer aquilo que Deus não ordenou! Alegar que a ausência de mulheres na liderança a eclesiástica é mero tabu, é de um simplismo inconveniente (ouso dizer, diabólico!), afinal, Jesus era tão revolucionário, tão polêmico, tão inovador, tão despreocupado com tradições, legalismo ou costumes que a única razão para ele não ter comissionado mulheres para serem apóstolas, é o simples fato de não querer mulheres na liderança da Sua Igreja. Daí estou absolutamente certo que ainda hoje ele não o quer (afinal seria estranho – pra dizer o mínimo – um Deus imutável, mudar de opinião). Mas acima disso tudo, ou confiamos que a Bíblia é a palavra de Deus inerrante, completa e suficiente ou então seremos como tantos outros cegos guiando cegos.

Enfim, não há meio verso na Bíblia suportando essa bizarrice, e toda a sã doutrina vai diretamente contra essa heresia.

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* Lc 2;36 e Ap 2;20 respectivamente;
[i] Is 8:3;
[ii] Ne 6:14;
[iii] Hb 11;32;
[iv] Joel 2; 23 a 32, cumprida em At 2;17 a 21;
[v] Ex 2;16;
[vi] Gn 24; 11 em diante;
[vii] Leia o livro de Ester todo;
[viii] Mt 28;1 a 8;
[ix] Na passagem de Jo 21;15 a 17, é certo dizer que nem mesmo Pedro entendeu que essa atribuição era exclusividade sua, afirmar isso é valorar o tal trono de Pedro, tão diabólico!
[x] O termo ‘bispo’ significa, superintendente, supervisor, talvez administrador, gerente, e certamente no contexto bíblico, pastor;

sábado, 9 de julho de 2016

4 observações sobre o 4º mandamento

(Ex 20; 8. a 11):

1) O mandamento é para ser lembrando, trazido e mantido na memória, deve ser algo buscado, perseguido, incentivado... por isso mesmo esse mandamento está positivado na Palavra, diferentemente de outros oito dos dez mandamentos (que são negativos, “não farás...”). Nossa tendência natural é então rechaçada, somos egoístas, cremos que nossa capacidade nos dará tudo, confiamos na força dos nossos braços, o trabalho e a determinação nos farão avançar; esse mandamento nos esmaga, humilha, mortifica! Nos faz lembrar que nada somos, que Deus é o Senhor do Tempo, exalta uns e abate outros, e determina a sorte das nações. E mais, Ele que criou o mundo, descansou! Fica óbvio que há um tempo determinado para tudo e até para o descanso, não seja impertinente.

Lembre disto!

2) O mandamento fala do dia de descanso físico, da suspensão do trabalho; é para nosso deleite, nosso prazer! Não é (e nem deve ser) um fardo, uma tortura e nem uma obrigação mecânica, mas sim um privilégio, uma dádiva, um presente imerecido! Não uma arma ou arapuca, para nos fazer tropeçar... ele é nosso, e não nós, dele! Afirma-se aí benevolência do Senhor que concede um descanso aos seus servos, e nos estimula a agir assim com todos os que estão a nossa volta, seja com nosso filhos, colegas e funcionários, ou com outros, sobre nossa supervisão e autoridade, e até mesmo sobre os nossos animais.

Descanse assim!

3) O mandamento aponta que o descanso (físico) é santo (correto, bom, justo, divinamente inspirado -- e já por isso obrigatório: os filhos de Deus buscam obedece-lo), mas não é meramente isso, não fala só do corpo, do mundo físico, do animal. O mandamento é também espiritual; deve ser consagrado, ou seja, separado do comum e dedicado a Deus, tem-se então a face cúltica evidente – sua observância será agradável ao Senhor, mas deve-ser sem mentiras e hipocrisia, sem legalismo destituído de entendimento e amor; não cultuemos a Deus, presos a perscrutações sem fins e regrinhas, queixumes e questiúnculas, que antes ofendem e matam, nada misericordiosamente necessário. Cristo é nosso Descanso, é o dia dele, dia futuro, semanalmente anunciado.

Santifique isso!

4) O mandamento foi mudado: o sétimo dia passou para o primeiro – isso é biblicamente comprovado*! Essa mudança afirma um novo começo, uma nova dispensação, um novo Sacerdócio, e certamente uma nova forma de observá-lo. Não mais na caducidade da letra, mas apoiado na Palavra Viva, o Senhor Jesus. O que mostra também o verdadeiro cumprimento que está em Cristo, pelo que temos livre acesso ao nosso deleite real, Aquele que é a razão existencial, nosso propósito principal! Entraremos, por pura e maravilhosa Graça no Descanso do Senhor, que desde do princípio está reservado para aqueles que lavaram as suas vestiduras com o sangue do cordeiro.

Guarde isso!

Concluindo:
Seu coração, deseja Ele? Então deve desejar o dia dEle, mesmo o já previamente vislumbrado no encontro semanal da Igreja. Não faça disso um "cavalo de batalhas", mas não esqueça que é prescrição divina, o santo descanso. Lembre-se, o dia do Senhor será o dia da consumação da nossa salvação, dia este, já realizado na eternidade, confirmado na historia pela cruz e pela ressurreição, e semanalmente anunciado. É o dia da vitória de Jesus, vitoria por nós; não minimize e nem menospreze essa realidade. Mas não torne essa data um suplicio, nem para ti, nem para os outros! Organize-se para aproveitar o máximo possível esse dia, em especial a Palavra Viva que deve ser anunciada (e ouvida) na Igreja.


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Veja em: http://acruzonline.blogspot.com.br/2016/06/7-vozes-sobre-o-7-dia.html

quinta-feira, 23 de junho de 2016

7 Vozes sobre o 7º dia


Esse artigo tratar objetivamente do 4º Mandamento (Êxodo 20;8) na celebração cristã em sua óbvia transição do 7º para o 1º dia da semana. A ideia é afirmar o valor piedoso do culto no domingo. Não haverá uma defesa do modo especifico de se observar esse mandamento para além desse quesito; isso ficará para outro momento, afinal esse tema é muito bem estruturado nas diversas tradições cristãs. Segue então 7 apontamentos, escalonados – penso eu – em ordem crescente em importância ou peso argumentativo, sobre a mudança do 7º dia.

1- A voz do calendário:
Em 320 d.C. na reforma do calendário romano, oficializam o primeiro dia da semana como “Dia do Senhor” especificamente por ser o dia conhecido e aceito costumeiramente como sendo próprio da celebração cristã. Conjuntamente, se mantém o sabbath (sábado) em referência ao antigo compromisso judeu (lembre-se que haviam muitos judeus em todo o mundo romano). Eles não são juntados ou ignorados, indicando que eram dias para diferentes religiões, realidade já clara ainda nos primeiros séculos da era comum. E mais, o concílio de Niceia (ano de 325 d.c), faz alusão ao Dia do Senhor, primeiro dia da semana, em uma de suas decisões. O Dominica Dies (literalmente Dia do Senhor), mais para frente “domingo” – no nosso bom e velho português – passa a reger o início das semanas. Ou seja, a influência cristã na sociedade romana, religião que inicialmente foi mortalmente perseguida, depois tolerada, aceita e oficializada é que força a mudança do calendário e não o contrário, como afirmam alguns.

2- A voz da Tradição:
Em meados do século II, Justino, o Mártir, identifica “o viver cristão com o sábado perpétuo que consiste de abster-se do pecado, e não do trabalho” – uma clara oposição ao costume judeu. lrineu encarava o sábado como um símbolo do futuro reino de Deus, no qual aqueles que serviram a Deus “num estado de descanso, participariam da mesa de Deus”, espiritualizando o entendimento do mandamento. Tertuliano declarou: “Nós não temos nada a ver com as festividades judaicas”, obviamente incluindo o sabbath. Orígenes disse do cristão perfeito: “Todos os seus dias são do Senhor e ele está sempre observando o dia do Senhor”, contra o exclusivismo sabatista. Mas no Didaquê, o mais antigo manual de preparação de batismo e discipulado da Igreja Cristã (80-90 d.C.), diz no Capítulo XIV: Reuni-vos no dia do Senhor (o primeiro dia da semana) para a Fração do Pão e agradecei (celebrai a Eucaristia), depois de haverdes confessado vossos pecados, para que vosso sacrifício seja puro.

3- A voz da História:
Parece certo dizer que foi só no início do século XVII que essa ideia ganha algum interesse. Na Inglaterra, em 1617, um grupo dissidente de batistas organizou a primeira Igreja Batista do Sétimo Dia. Literalmente se separando da cristandade da época. Embora o contexto histórico conturbado fundamente, também, essa separação, simplesmente eram o único grupo a insistir com isso. E segundo eles mesmos, foi por isso que eles se separam. O distintivo era observar o sábado (sétimo dia) como dia de descanso e adoração, “uma exigência imprescindível do cristianismo bíblico”. Foi-se mais de duzentos anos até que por influência de Raquel Oaks, viúva, membro da igreja Batista do Sétimo Dia, o pastor Frederick Wheeler passa a observar o sétimo dia, iniciando assim o que mais tarde se torna a Igreja Adventista do Sétimo Dia, os mais “famosos” cristãos sabatistas. Isso não é desimportante, é como afirmar que levou 1500 anos para o Espírito Santo convencer a igreja a ser pura!

4- A voz da Reforma:
Calvino em sua mais notável obra, diz que o apóstolo Paulo ensinava que os cristãos não devem ser julgados por sua observância (a guarda do sábado ou de outro dia especial) pois era apenas sombra da realidade futura. E, mais, afirma também que o autor da Carta aos Romanos acusa de ser “supersticioso quem distingue um dia de outro dia”. E completa, “visto que era proveitoso afastar a superstição, foi abolido o dia religioso dos judeus (sábado ou sétimo dia), e como era necessário manter na Igreja o decoro, a ordem e a paz, outro dia foi destinado para esse fim”. Prosseguindo, para concluir seus argumentos, diz: “Não foi aleatoriamente que... antigos colocaram o dia do domingo no lugar do sábado. Dado que a verdadeira quietude que o antigo sábado representava teve na ressurreição do Senhor um fim e complemento, pelo mesmo dia, que pôs fim à sombra, os cristãos são admoestados a não aderir a uma cerimônia de sombras”.

5- A voz da Pureza:
Já os puritanos – parte da sociedade inglesa do sec. XVII e XVIII – sinceros e profundos conhecedores da fé cristã, bíblicos, interdenominacional, anti-romanistas, indiscutivelmente fieis e abnegados, dispostos até morrer pelo que acreditavam ser a correta interpretação da Palavra de Deus, são unanimes em compreender a obediência ao 4º mandamento (lembrar-te do dia de sabbath, para o santificar) como a observação piedosa do primeiro dia da semana (domingo). É fácil provar a disposição deles em romper com tudo que era meramente tradicional ou apenas romanismos, e caminhar na certante das Escrituras Sagradas. Eles avançaram sobre temas como o governo eclesiástico, as relações da Igreja e o Estado, negaram o cerimonialismo, o poder papal, partilhavam um ativismo sócio-político tocante e eficaz, mas simplesmente insistiram – e até de forma radical; vejam os padrões de Westminster – "o Dia do Senhor é o primeiro dia da semana"! Notem que esses eram contemporâneos dos primeiros sabatistas, mas há dúvidas da posição deles – o que diz muito! 

6- A voz da Teologia:
Cristo ao se afirmar o Senhor do sabbath, coloca esse mandamento na perspectiva certa: o descanso foi feito para o homem e não o contrário (Marcos 2;27 e 28), vence a superstição associada ao dia – as 24 horas semanais tem algum valor em si mesmas –  sacramentando, de modo inquestionável, o valor piedoso – obediência e submissão, afinal até Deus descansou! – já do cuidado do corpo garantido pela simples observação do descanso físico semanal. Em outro ponto, João 4;23, num dia comum, o Mestre afirma que a hora já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, pois estava trazendo essa hora cativa a si mesmo (João 15;1-11). Somando-se às leis do Antigo Testamento que regem a observância do sábado, devem-se compreender o princípio do “novo sábado”, relembrando o passado bendito, no Éden e seu fruir livre, prazer de Deus – e Árvore da vida quase sempre esquecida! –  contrastando com parte da pena imposta a humanidade (o sustento através do penoso trabalho), quanto para o dadivoso futuro, numa expectativa da vitória definitiva de Jesus Cristo, da qual sua ressurreição, que aconteceu no primeiro dia da semana, é um prenúncio, o Último Dia, o Dia do Senhor que é verdadeiramente o Descanso prometido por Deus (Hebreus 4;1,3, 7-11), e em especial como apontamento já no presente, do Descanso na visão cristã, antes de tudo, A Paz com Deus, um cumprimento espiritual da alegoria no Salmo 23. Em outras palavras, o leve fardo e o suave jugo do Senhor (Mateus 11;30). Ou seja, por causa do Cristo glorificado, que santificou todos os tempos, rasgando o véu da separação, dando livre acesso ao trono da Graça (Efésios 2; 11 a 18), o domingo não é como o sábado dos judeus (atrasado 24 horas) – pois se for, incorre-se no mesmo erro dos judaizantes – mas um anúncio de vitória completa de Cristo, passado, presente, futuro; o próprio dia é em si Pregação!

7- A Voz da Palavra:
Fica claro em todo o livro de Atos que tanto Paulo, quanto os outros apóstolos iam as sinagogas, aos sábados (sétimo dia), pois era o dia comum de funcionamento, para ali pregar o Evangelho aos judeus! Mas em Colossenses 2;16 e 17, Paulo, o apóstolo dos gentios, afirma não ser necessário fixar-se em datas e dias dos judeus e nem em outro costume da religião judaica. Em Gálatas 4;10 e 11 ele lamenta, questionando o resultado do seu trabalho, exatamente porque, entre outras coisas, os crentes daquela cidade estavam querendo guardar “dias, e meses, e tempos, e anos”. Interessantemente no concílio de Jerusalém (Atos 15), os apóstolos reunidos não impuseram aos não-judeus, nenhuma outra coisa além de que se guardassem da idolatria, da imoralidade sexual, da carne dos animais sufocados (talvez torturados) e do sangue (provavelmente uma alusão à rituais pagãos de abatimento animal). Eles não ratificaram a observância do sétimo dia, preceito importantíssimo no judaísmo. Entretanto é inegável o fato: a Ceia do Senhor era realizada no primeiro dia da semana (domingo)! Numa tradução mais literal de At 20:7, “no primeiro dos sete dias da semana, tendo os discípulos sido ajuntados para partir o pão, Paulo, estando para viajar no dia seguinte, de forma completa argumentava com eles; e prolongava a pregação até à meia-noite...”. Segundo uma nota de tradução, os termos “των σαββατων”, que foram traduzidas na maioria das versões – inclusive na mais usada pelos sabatistas – como relativo semana, estão no caso genitivo e no gênero plural, forçando a compreensão num sentido de “primeiro dia da semana” (domingo), foi esse entendido usado para outras oito passagens: Mateus 28:1; Marcos 16:2,9; Lucas 18:12; 24:1; João 20:1,19; ICoríntios 16:2.  – Pense bem, o reanúncio do Sacrifício materializado, um sacramento, ordenança de Cristo, meio de Graça, não só ao coração (doutrina) mas também para os cinco sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar) era naturalmente feito no domingo. Isso é muito significativo!

A Voz da Razão:
O cristão deve fugir de qualquer superstição quanto o tema. O 4º mandamento se mantém em seus princípios, assim como todas as leis cerimoniais do Velho Testamento. Embora se possa argumentar de modos diversos como deve ser essa observância específica, é sábio insistir que o dia da semana foi mudado. Coisa que não se prova apenas por um mero verso, mas por toda a sabedoria divina presente em toda a Escritura Sagrada.

A voz de outros:

Para saber mais sobre a tradição (patrística), sugiro:
http://www.paulus.com.br/loja/search.php?q=patristica&utm_source=portal&utm_medium=menu_search&utm_campaign=portal_palavra

Sobre o pensamento de Calvino, sugiro:
http://loja.clire.org/produto/a-instituicao-da-religiao-crista-tomo-1-e-2/
http://www.cristaoreformado.com/2016/06/o-que-calvino-realmente-disse-sobre-o.html

Para saber mais sobre os puritanos, sugiro:
http://www.livrariacultura.com.br/p/paixao-pela-pureza-42891540
http://www.editorafiel.com.br/produto/5504435/Santos-no-Mundo

Sobre o 4º mandamento sugiro:
http://www.monergismo.com/textos/dez_mandamentos/quarto_solano.htm
http://editoramonergismo.com.br/?product=os-dez-mandamentos

Observações:

A citações dos pais da igreja foram retiradas de livros digitais usados na minha monografia para ordenação;

O Didaquê pode ser consultado aqui: http://www.ofielcatolico.com.br/2001/05/o-didaque-instrucao-dos-apostolos.html

A citações de Calvino, são do capítulo VIII, parágrafos 32, 33, 34, livro 1, tomo 2, da UMESP.


Originalmente postado em: http://acruzonline.blogspot.com.br/2016/06/7-vozes-sobre-o-7-dia.html

domingo, 3 de abril de 2016

O Cristão e as Tatuagens


Algumas palavras introdutórias:
Inicialmente comecei a escrever um roteiro para um rápido vídeo em que pretendia responder as indagações de amigos que pedindo explicações, insistiram em respostas mais formais sobre tatuagens. Foi daí que veio esse ‘pequeno’ artigo.

O tema é batido, muita gente boa já comentou. Eu nos últimos 4 anos já respondi essa mesma pergunta uma meia-dúzia de vezes. Quase tudo que escrevi são convicções antigas. O tema é recorrente para mim desde o início da adolescência, quando integrante de uma banda de rock, pensei em me tatuar – desejo não concretizado por detalhes, pelo menos inicialmente. Desde então revisei alguns conceitos que progrediram e se estabeleceram mais firmes. São eles que esboço.

Embora seja mais comum o questionamento sobre “o cristão e as tatuagens”, abordarei a temática mais ampla das modificações corporais. Isto é, basicamente, tratarei tudo como uma coisa só; os argumentos serão necessariamente intercambiáveis, valendo para as diversas modalidades dessa prática, seja tatuagens, piercings, brandings, escarificações, implantes, alargadores, fendas, amputações e etc. – se der tempo, ainda falo algo sobre cirurgias plásticas e de outros procedimentos estéticos menos invasivos.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Sobre as discussões...

No mesmo lugar que se lê o tão citado texto¹ quando de discussões teológicas: "Evita discussões insensatas, genealogias, contendas e debates sobre a lei; porque não têm utilidade e são fúteis." Também, se lê "... faças afirmação, confiadamente, para que os que têm crido em Deus sejam solícitos na prática de boas obras. Estas coisas são excelentes e proveitosas aos homens (os que crêem em Deus)." bem como "Evita o homem faccioso, depois de admoestá-lo primeira e segunda vez, pois sabes que tal pessoa está pervertida, e vive pecando, e por si mesma está condenada."

Sem muita dificuldade ou grandes incursões exegéticas, é possível compreender que a defesa da fé, digo de uma defesa verbal – as discussões teológicas – deve ser feita. Claro, de forma propositiva, ou seja, com o objetivo de crescimento mútuo e fortalecimento da fé (Efésios 4;12). E obviamente tais versos, destinados a Tito, pelo apóstolo Paulo, nos exortam a NÃO gastarmos nossa energia – em defesa verbal da fé; discussões teológicas e etc – com os que só querem criar divisões e contendas na Igreja, obviamente aqueles que insistem em heresias e afirmações anticonfessionais².

As exortações, os debates, as discussões teológicas -- mesmo as mais acaloradas -- não estão vetadas quando o propósito é ensinar a Verdade àqueles que amam a Cristo. E isso se faz também com contrariedade, arguição, desconstrução e silogismo -- Não dá para esperar crescimento por ‘osmose’! Não faz sentido todo o Texto Sagrado fazer uso da lógica e da razão e isso ser proibido para os cristãos. Chamam Jesus de Mestre, a Igreja de Escola da Graça e o Espírito preceptor³ e imaginam que o crescimento na fé e no CONHECIMENTO daquele que é a Cabeça vem por algum ritual místico? Não dá!

Obviamente outras imposições bíblicas devem ser levadas em consideração. Desde o amor ao irmão, ao apego a sã doutrina (todo bíblico aplicado a cada detalhe) ou respeito aos maiores (mais velhos, mais experientes e os que possuem maiores responsabilidades, cargos, tarefas ou ofícios na Igreja) e a humildade. Não se pode esquecer também da paciência com os mais simples e com aquela que estão começando na carreira da fé, ou os que por diversas razões estão com os pressupostos teológicos errados.

Não devemos tomar o padrão mundano (melindroso) de aceitar tudo e qualquer coisa, mesmo as mais antagônicas pela alcunha de amor. Isso não é só obtuso, é contraditório ao expediente ordinário da Palavra que em mais de uma ocasião nos chama ao arrazoamento.
__________________
¹ Tito 3;9 e, obviamente os versos próximos.
² Eis mais uma vantagem da confessionalidade: afirmações limítrofes práticas e claras; fica fácil.
³ O que dá instruções ou preceitos; mestre; aio.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

POR QUE AS IGREJAS DEVERIAM REPENSAR O SALÁRIO DO PREGADOR?

A relação entre o trabalho que um pregador realiza e o dinheiro que ele leva para casa parece ser muito clara para a maioria dos membros de igrejas: “nosso pregador ‘ministra’ à esta igreja – ele visita os doentes, ela aconselha, ele evangeliza, ele prega, ele ensina, ele faz o boletim e tudo o mais que pedirmos a ele – e nós o pagamos para que ele faça estas coisas.” Esta é a forma como a maioria dos cristãos pensam sobre seus pregadores e o “salário” que pagam para ele. Mas será que esta é de fato a forma como deveríamos pensar sobre isto? Pessoalmente, eu creio que não. Aqui estão algumas coisas para considerarmos…

1. Pare de pensar que o Pregador faz o que faz pelo pagamento.

A maioria dos membros de igrejas pensam que os seus pregadores fazem o que fazem porque eles o pagam para fazê-lo. Eu creio que esta é uma forma invertida de se pensar sobre a situação. É muito mais saudável pensar da seguinte forma: “O pregador comprometeu sua vida à proclamação do evangelho e nós o apoiamos financeiramente neste esforço.” Ele não faz o que faz porque vocês dão dinheiro a ele, vocês dão dinheiro a ele porque ele faz o que ele faz.

O Apóstolo Paulo abriu mão do seu direito de coletar apoio financeiro da maioria das igrejas nas quais ele trabalhou, mas ela afirmou que as igrejas deveriam apoiar aqueles que trabalhavam espalhando o evangelho (1 Coríntios 9). A igreja deve sustentar tantos quantos pregadores, professores, evangelistas e missionários ela for capaz. Quando homens querem devotar a vida deles à proclamação do evangelho, nós devemos considerar como nosso privilégio e alegria sustentar estes homens.

2. Pare de pensar que seu pregador faz o que ele faz em seu lugar.

Muitos membros de igrejas pensam em seus pregadores como os ministros (servos) da igreja. Eles consideram como tarefa do ministro fazer o aconselhamento, a visitação, o evangelismo e o ensino da igreja. E quer admitamos ou não muito deste pensamento vem do fato de que nós não queremos fazer este trabalho, pensamos que não temos tempo, então contratamos alguém que faça por nós.

Dizemos coisas do tipo: “Eu não sei como fazer e não tenho tempo para ir no hospital e visitar as pessoas que estão doentes, nem para fazer estudos bíblicos com incrédulos; é para isso que pagamos o pastor.” Mas não poderíamos estar mais errados por esta forma de pensarmos.

Não existe nenhum precedente bíblico para se contratar alguém para fazer a obra que nós deveríamos estar fazendo. De fato, uma das tarefas do pastor é “equipar” os membros da igreja para que eles façam a “obra do ministério” (Efésios 4.11-12). Você não sustenta um pastor para que você possa ser aliviado do trabalho, você sustenta um pastor, em parte, para que ele ajude a te equipar e motivar para a obra que você deve estar fazendo.

É óbvio que ele ajuda a equipar a igreja sendo um bom exemplo de serviço, mas se ele começar a fazer o trabalho por você, ele estará te mimando e não te equipando. Muitos pastores precisam parar de mimar a igreja e começar a equipar a igreja.

3. Pare de pensar que seu pregador pertence a você.

Quando uma igreja pensa em seu pregador como empregado dela, ela entendeu errado a situação. O pastor não trabalha para a igreja. Ele não trabalha para os presbíteros. Ele trabalha para o Senhor. Paulo chama os pregadores de “servos do Senhor” (2 Timóteo 2.24), e é isto o que o pregador é, o servo do Senhor. Não o nosso servo.

É claro que o pregador e seu trabalho estão sob a supervisão dos presbíteros da igreja. Os presbíteros pastoreiam o pregador, ajudando-o a balancear o trabalho que ele realiza especificamente para a igreja local e o trabalho que ele realiza pelo Reino. Um pregador pode decidir junto com seus presbíteros que seu trabalho precisa focar primariamente – ou até mesmo exclusivamente – na obra local; enquanto outro pregador e seus presbíteros podem decidir focar as habilidades do pregador mais em espalhar o evangelho ao redor do mundo.

Mas é vergonhoso quando uma igreja acredita que o pregador pertence a eles e se ressentem pelo tempo que ele investe pregando e ensinando em outros lugares.

4. Deixe seu pregador ser um membro de sua igreja.

Quando as igrejas pensam que seus pastores são empregados que pertencem a eles, elas com frequência falham ao não tratá-los como co-membros de igreja. Nossos pregadores precisam ser capazes de ter comunhão, aprender, confessar seus pecados e dificuldades, serem encorajados, aconselhados e ter todos os benefícios que desfrutamos como membros de uma família da fé. Mas muitas vezes nós negamos estas bençãos a eles porque os tratamos como nossos empregados.


Considere algumas destas questões:
O pregador está sempre ensinando na Escola Bíblica Dominical, ou vocês deixam que ele seja o aluno algumas vezes?
Você espera que seu pregador seja sempre quem estará ensinando, aconselhando e encorajando você, ou algumas vezes você oferece a ele os seus ouvidos?
O seu pregador se sente como um membro da sua igreja ou como um empregado da sua igreja?

Conclusão

O ponto central é este, temos que parar de pensar que o dinheiro que damos ao nosso pregador faz com que ele tenha uma dívida com a gente. Ao invés disto, devemos considerar nosso privilégio podermos sustentar homens que fiel e diligentemente proclamam a mensagem do evangelho em nossa igreja ou ao redor do mundo. Devemos encoraja-los de todas as formas que pudermos na obra que eles realizam.

Wes McAdams

Post Original.

http://revive.org.br/por-que-as-igr...