quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

CARTA ABERTA

Sobre a saída da equipe pastoral da 1ª IPPVH

Sim, estamos deixando a Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho. As diferenças existentes com parte do Conselho, quer de opiniões, quer de alvos e métodos para a condução da igreja inviabilizaram a caminhada conjunta, pelo que, com tristeza – mas resolutos – a partir de 1 de dezembro de 2016, nós, rev. Ewerton Tokashiki, rev. Rogério Bernini Jr. e rev. Esli Soares entregamos a direção pastoral dessa amada igreja.

Ao longo dos últimos 4 anos a distância entre as cosmosvisões foi traduzindo-se em distanciamento pessoal. Inúmeras foram as tentativas de clarificar que nossa postura é, nada mais que o pensamento cristão, reflexo bíblico. Bem assim, a forma de apresentar este pensamento para a igreja, a saber a exposição bíblica, a única maneira instruída na Palavra – a qual estamos inegociavelmente presos – não surtiram o efeito desejado na mente e no coração de alguns, pelo contrário, acirraram os ânimos, o que dificultou a tomada de decisões nos mais diversos assuntos. Assim, aquilo que eram rixas ideológicas tornaram-se ataques pessoais, impossibilitando, por fim, o convívio harmonioso do Corpo de Cristo.

Mesmo diante das inequívocas demonstrações de nosso apego a Palavra, aos símbolos de Fé, à doutrina reformada, aos ideais de nossos pais puritanos, às decisões conciliares – muitas vezes contra as nossas próprias paixões – lamentavelmente, muitos optaram por apenas manter amizades, estruturas, praxe e ideias – não poucas vezes – irrefletidamente obtusas e contrárias as Santas Escrituras. De tal forma que, certamente, nossos esforços para dirigir a Primeira Igreja rumo a suprema vocação se dirimiram, não nos restando outra opção além da saída.

Sabemos que tal decisão abala emocionalmente a todos, e gera ansiedade, pela erradamente presumida insegurança, seja em nossos familiares, seja na comunidade eclesiástica com a ausência desses pastores. Entretanto, cremos que Deus, o SENHOR, está na direção de cada passo, e Ele tem o melhor para cada um de nós, pois Ele mesmo é o Senhor da Igreja. Não obstante, é importante ressaltar – seja para acalmar alguns, seja para calar outros – temos nossos planos diante do Senhor: Não estamos deixando nem o ministério pastoral e nem a Igreja Presbiteriana do Brasil. Ewerton pediu a antecipação do fim de seu vínculo pastoral com a igreja local e em 2017 estará em ano sabático, finalizando alguns projetos pessoais, e se preparando para o mestrado, provavelmente fora do país; Rogério Bernini Jr. está à disposição do presbitério e em tratativas para um novo campo já em 2017; Esli Soares foi eleito para os 3 próximos anos como pastor na Igreja Presbiteriana Filadélfia em Boa Vista - RR.

Diante de nossa não permanência, parte da membresia resolveu também buscar outros ares, e fez pedido formal de demissão do rol de membros da Primeira Igreja de Porto Velho, seu futuro só é incerto para nós que temos a visão limitada. Conquanto fieis ao SENHOR e a Sua Santa Palavra, certamente estão sob cuidados do Bom Pastor direcionados à Cidade Santa, caminho excelente, e por eles rogamos a Deus as mais ricas bênçãos.

Solicitamos a todos que evitem a disseminação de boatos, mentiras ou meias-verdades, que os piedosos orem por todos os envolvidos, e que reservem o julgamento ao Supremo Juiz que tudo vê e sem corrupção decide soberana e bondosamente em favor dos seus.

Que a paz de Cristo seja o vínculo que nos une.

Ewerton B. Tokashiki
Rogerio Bernini Junior
Esli Soares

sábado, 5 de novembro de 2016

Eu, a Família e a Igreja

Em 1998 em um acampamento, o então reitor do SETECEB*, rev. João Batista, disse em uma das suas pregações algo sobre os desafios da vocação pastoral. Creio -- faz muito tempo -- que baseado em Hebreus 12, ele levantou três grandes "inimigos" que SEMPRE nos atrapalham, seja os aspirantes ao sagrado ministério (eu na época), seja no próprio ministério pastoral: o Eu, a Família e a Igreja; na ocasião EU tinha certeza da minha vocação; minha FAMÍLIA (meus pais e irmãs eram -- e ainda são -- pessoas piedosas) e a minha IGREJA (na época ICE BETEL) compreendia bem o meu chamado.

Pois bem, dois anos depois eu comecei a me preparar formalmente para esse projeto de vida -- projeto que ainda desenvolvo, não sem lutas, mas sem dúvidas – e de início descobri que EU não sou capaz, que EU sou inadequado, seja pelas minhas idiossincrasias, pelas minhas incapacidades, ou pelos meus pecados. EU não sou a melhor escolha para esse ministério; havia homens e mulheres¹ muito melhores que eu em tudo o que fazíamos, e olha que o meu curso de teologia não era nada muito avançado! Minha FAMÍLIA, meio (bem pra mais do que pra menos) a contragosto, me apoiou, mas não sem antes tentar me dissuadir -- por isso os dois anos para começar os estudos; a IGREJA, bem essa é a mais interessante (como sempre); é verdade que a ICE Betel me apoiou; pagou parte dos meus custos. A maioria de seus membros sempre me tratou como seminarista e etc. (pelo que sou muito grato), mas por uma série de detalhes teológicos que já não veem ao caso, terminei o curso, e nunca foi conduzido ao estágio** (parte final da preparação ao ministério). Acabei tendo que deixar a denominação e ir para a IPB -- eu já era muito calvinista, não dava mais...

O interessante é que ainda vejo que esses três "inimigos" da minha vocação presentes e atuantes! Ainda luto com as fraquezas do meu EU (Rm 7), minha FAMÍLIA² (agora, esposa e dois filhos) é um peso (1Co 7, 26 a 28) e pesa muito! As demandas e responsabilidades da vida conjugal e da paternidade me comprimem e acabam por determinar algumas ações. Por fim tem a IGREJA, essa que é a noiva de Outro que eu tenho de cuidar como se fosse minha, mas sem esperar nenhum tipo de compensação (eu não me casarei com ela)! E mais, embora essa Noiva (da qual ironicamente eu, pastor, também faço parte) seja sem manchas, sem máculas, sem rugas, é também uma escola para reeducar filhos adotivos que estão mal (e mau) acostumados com as lições do orfanato do Diabo de onde foram resgatado, por isso mesmo alguns desses filhos de Deus ainda são tão diabólicos e se parecem tanto com o falso trigo, o joio semeado, sorrateiramente, pelo INIMIGO, nos campos do SENHOR.

Nunca me enganaram, o ministério pastoral é para homens, não meninos. Eu luto diariamente e esmurro meu corpo para que não seja reprovado naquilo que sempre condeno, por isso termino dizendo, quem almeja o episcopado bom trabalho deseja, mas àquele a quem mais é dado, mais será cobrado, não queiram muitos de vós serem líderes.
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* SETECEB - Seminário Teológico Cristão Evangélico do Brasil;
** Na verdade o pastor titular de então convidou outro seminarista (com mais afinidades teológicas) que nem era da igreja para o estágio, o que teoricamente atrasou minha formação em 6 meses, e depois em um ano e teria posto fim nesse etapa se eu não tivesse ido embora da ICEB;
¹ O fato de mulheres serem melhor exegeta do que eu, ou ter compreensão teológica apuradíssimas e traquejo pastoral (uma delas era além de mãe de três, pastora leiga em um igreja metodista já alguns anos) não serve de prova para a vocação pastoral feminina.
² Interessante como Deus faz as coisas, a FAMÍLIA que é um fardo dado a mim pelo próprio Deus, é a parte que mais me motiva, como sou grato a minha esposa que enfrenta corajosamente os desafios dessa vocação sempre ao meu lado. Ela jamais reclamou das mudanças, da baixa renda, das muitas horas em reunião, dos dias seguidos de ausências, das noites em claro por preocupação ou preparação

sábado, 15 de outubro de 2016

Sobre as Marcas da Verdadeira Igreja

Sobre as Marcas da Verdadeira Igreja

Há 3 marcas da verdadeira Igreja: A fiel exposição da Palavra; A correta administração dos Sacramentos; A Disciplina Eclesiástica!

É relativamente fácil ser um expositor das Escrituras. Por um processo meramente mental, pela aplicação da boa lógica no texto, se retira verdades, é quase mecânico -- não me tenha mal, é claro que o Espírito Santo é quem de fato faz a obra, mas a exposição das Escrituras pode, com certa facilidade, ser falsa; é sobre o que eu falo e não sobre o que eu faço; eu posso ser um hipócrita, e praticar o exato oposto do que afirmo nos sermões! Sim, fui ao absurdo para demostrar o ponto. É simples, o Texto é do Autor, e tem por intenção a comunicação, Ele é pai da Lógica, da compreensão, do entendimento, o que Ele diz é Reto, Certo, Justo e Bom. Meu trabalho como pregador é mais de desentulhar as mentes para que a Água Viva corra do que de alguma maneira purificar as torrentes das Águas.

A correta administração dos Sacramentos, começa pela compreensão de quantos e quais são esses sacramentos (diminui-los para ordenanças¹ num sentido menos glorioso, e ignorar que são também meio de graça, pois comunicam tanto aos participantes diretos, quanto aos que estão meramente presentes o Evangelho, é um erro terrível cometido frequentemente, que certamente desabona as igrejas hodiernas), e vai até a correta entrega ou prática -- o suporte teológico de cada detalhe da celebração -- bem como a recepção e lembrança piedosa deles, e no continuo e frequente ensino sobre o tema.

Esta correta administração, em certo sentido, também é fácil de fazer, tanto porque é pregação (exposição da Palavra também de outra forma), quanto é um ato público, celebrativo, belo e bom -- longe de ignorar a veracidade da pregação do martírio do Senhor, volto a dizer, não estou minimizando tais marcas. Afirmo apenas que também é algo, digamos, mais extrínseco; conseguiria faze-la sem o zelo correto, sem a devoção necessária, sem a piedade óbvia e talvez ninguém perceba nada; há aí também QUASE um "ex opere operato"².

Já a Disciplina Eclesiástica parece mesmo o inverso. Confesso, é certo que em muitas comunidades locais tal marca da verdadeira Igreja é abusivamente usada, ao ponto que essa marca se torne cicatriz, ferida aberta! Em vez de trazer ao arrependimento, torna ainda mais duro e odiosos o coração do faltosos – muitas vezes injustamente denunciado. Não por isso, entretanto, há que se ir pelo exato oposto; não aplicar disciplina é tanto desobedecer a Deus como negar sua Maravilhosa Graça a povo santo, porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe (Hb 12:6).

Então diferentemente das outras duas marcas que confessadamente afirmei certa facilidade em ‘demonstrar’, pois estas QUASE se operam sozinhas, a Disciplina Eclesiastica é necessariamente administrada pela Igreja. E isso não é algo fácil, não se formos verdadeira Igreja ao manifestar tal marca. Seja pelo caráter do Pai que estimula a santidade pelo açoite, seja pela perpetração da pena em nós por nós. E parece mesmo que é isso que Ele quer. Pois antes de imaginarmos que a justeza do ato trás a Justiça de fato, há aí tipificado um dom do Alto:

Poderia ilustrar o ponto defendido (não é meu expediente comum, mas serve bem ao caso) com um pitoresco e bom exemplo próprio:

Certa vez meu pai ao me corrigir mandou que eu mesmo fosse buscar uma vara na árvore de amoras na casa do vizinho, suas orientações específicas foram para que eu escolhesse a melhor vara, para que com ela ele me disciplinasse, sob pena da castigo ainda maior... de fato o ensino, a admoestação, a reflexão, o arrependimento e o conforto (lógico, posterior!) ocorreram enquanto ia buscar o instrumento da minha (justa) tortura, martírio físico – que nem mesmo ocorreu!

A verdade é que cada golpe que a Igreja é chamada a administrar sobre os fieis, corta também o lombo daqueles que são instrumento dessa apenação (penalização). E como aquele menino que caminhava para escolher a vara que seria usada para corrigi-lo, que a cada passo em direção da árvore (que também produz frutos que sangram – que ilustração da Graça!) vai se tornando um homem, volta feliz para o castigo físico, já curado e fortalecido pela repreenda, assim também a Igreja, a noiva de Cristo, e tornada santa, perfeita e sem mácula, não pela dor da corrigenda de um de seus membros, nem mesmo pelo golpe dado em si mesma, mas por se lembrar, no ato da disciplina, disciplina aplicada em si por si mesma, que Alguém suportou o Castigo que nos trás a Paz, e ele fez isso voluntariamente.

Não não é fácil disciplinar alguém, não é bom golpear o outro, pois cada vergão que sobe, sobe em meus lombos, e mais que isso, tal sinal é espelhamento do Martírio de Cristo.
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¹ Não falo de semântica, sacramentos são obviamente ordenanças do Senhor, mas não são só mandamentos como também são os 10 de Ex 20, os sacramentos além de terem sido dados pelo próprio Cristo e serem a mudança de regime (o que aponta perfeitamente para a Graça em Cristo), Lei e Evangelho, Sacrifícios sangrentos para Sacrifícios vivos, são comunicação aos 5 sentidos de quem é e o que fez o Salvador pelo seu povo.

² "Opera pela operação", diz-se, na teologia, daquilo que tem poder em si mesmo, opera (eficiência) pela mera operação (prática, realização) independente da fé do ministro e/ou ministrado; no sentido afirmado nesse artigo, digo que tanto a pregação quanto a ceia e o batismo tem em si certo poder (eficiência), pois são a Palavra exposta em cada um desses Sacramentos, ela sempre faz (opera) aquilo que por Ele foi determinado (Is 55;11), nem sempre entretanto, os Sacramentos serão meios de graça, pois àqueles que participam sem entendimento segue-se juízo (Mt 7, 24 a 27 e I Co 11;27 a 30).

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Quem é neo-puritano aqui?

Esse texto começou como uma simples resposta a uma “acusação” recente de neo-puritanismo. Ocorre, como sempre, que as letras voaram e a curta resposta se tornou esse artigo. Segue então, na flutuação das ideias apresentadas, o que penso de ser chamado puritano ou neo-puritano.
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O prefixo “neo”, do grego “νεος, νεα, νεον”, é um elemento de composição, significa novo. Aparece em termos como neologismo: palavras novas ou novas acepções e usos de uma palavra consagrada; artifício importantíssimo na língua portuguesa, com ela adaptamos (aportuguesamos) e assimilamos termos estrangeiros e de áreas diversas propondo novos usos. Outros exemplos comuns, são o neoclássico[1], neoliberal[2], neodarwinismo[3].

Usualmente se adiciona "neo" para afirmar certas continuidades e algumas inovações a um conceito, sem que seja essencialmente outro conceito. Na teologia temos esse uso, por exemplo: 

Pentecostal e neopentecostal: há distinções e progressos de um para outro, mas há muitas similaridades entre os dois conceitos, as vezes é até difícil classificar uma igreja (ou doutrina) como pentecostal ou neopentecostal;

Calvinismo e neocalvinismo: não confundir com novocalvinismo (newcalvinism) – movimento mais ligado ao fenômeno midiático do M. Driscoll[4] – Neocalvinismo “é o nome comumente usado para se referir ao movimento originado na Holanda, nos séculos 19 e 20, sob a liderança de Abraham Kuyper, cuja proposta básica era aplicar os princípios do calvinismo ao relacionamento do cristão e da igreja com a sociedade e a cultura de sua época”[5].

Ortodoxia e neortodoxia:
esse último, movimento teológico que floresceu na Europa (particularmente na Alemanha) da década de 1920 (caso interessante, talvez haja mais distinções que similaridades com o conceito de que deriva); o termo tenta ser de algum modo ‘bondoso’ com aqueles que abandonaram o fracassado liberalismo teológico e caminharam em direção da fé bíblica. Certamente o mais famoso expoente da neortodoxia é Karl Barth.

Dito isso, o que seria o Neo-Puritanismo?


Obviamente devemos caracterizar primeiro, PURITANISMO: Puritanismo foi um movimento de renovação espiritual na Inglaterra no século XVII, de confissão calvinista, que rejeitava tanto a Igreja Romana como o ritualismo e organização episcopal na Igreja Anglicana. Abrangente, repensou todos os aspectos da vida, inclusive a política, coisas que rendeu perseguições, forçando, por exemplo, John Winthrop (1588 a 1649; advogado e colonizador inglês) a levar o primeiro grande grupo de puritanos até a baía de Massachusetts (Estados Unidos, então colônia britânica). 

Toda essa situação chega ao seu ápice quando o Rei Carlos I, tentou impor o anglicanismo aos puritanos ingleses e aos presbiterianos escoceses, inclusive com ameaça de cadeias. Carlos I tenta com a eleição de um parlamento mais favorável a si, vencer a demanda, mas os ingleses elegeram um parlamento puritano, que foi prontamente dissolvido; com nova eleição, os puritanos tornaram-se ainda mais expressivos nas casas parlamentares; a persistência do rei em manter a obrigação da uniformidade anglicana, leva-o a uma guerra civil, que perdida resulta em sua condenação, por traição, à pena de morte, cumprida em 1649.

Passando ao largo de outros detalhes históricos, é nesse contexto da revolução puritana que acontece a Assembleia de Westminster; concílio convocado pelo parlamento, entre 1643 e 1649, para reestruturar a Igreja da Inglaterra. Constituída por cerca de 120 dos mais capazes teólogos da Inglaterra, 20 membros da Casa dos Comuns e 10 membros da Casa dos Lordes; todos os teólogos eram ministros da Igreja da Inglaterra e quase todos eram calvinistas. Houve participações de correspondentes escoceses. Produzindo, entre outros documentos, o Catecismo Maior, o Breve Catecismo e a Confissão de Fé de Westminster (nossos – IPB – símbolos de fé), que foi adotada como a confissão de fé distintamente presbiteriana.

Esta assembleia se caracterizou tanto pela erudição teológica, quanto pela profunda espiritualidade. Algo notável foi registrado pelo Rev. Robert Baillie[6]: “(...)num dia desses de jejum e culto houve quem orasse duas horas, sermões de uma hora entrecortados por orações de uma hora, por cântico de salmos ou orações de quase duas horas.”

Tudo isso serve para demonstrar quem de fato eram os puritanos. Parte da sociedade inglesa do sec. XVII e XVIII – sinceros e profundos conhecedores da fé cristã, bíblicos, interdenominacional (haviam batistas e congregacionais com essa mesma inclinação confessional), anti-romanistas, indiscutivelmente fieis e abnegados, dispostos até morrer pelo que acreditavam ser a correta interpretação da Palavra de Deus.

E neo-puritano? 
Seguindo a lógica, neo-puritano seria quem mantém grande parte do pensamento teológico distintivo dos puritanos? Quem busca a piedade em todas as áreas da sua vida, marca daquela geração? Quem tenta viver a fé puritana mesmo que com algumas alterações? ...até quem estando errado em suas concepções anteriores, ao reconhecer suas falhas, caminha em direção ao certo (nesse caso tendo o paradigma inquestionável desses grandes homens de Deus) bem poderia ser chamado de neo-puritano? 

De qualquer modo que avaliarmos, todo o membro da Igreja Presbiteriana do Brasil, que seja coerente em sua devoção e piedade, sincero e submisso à Palavra, que busca viver de acordo com a declaração teológica sistêmica institucionalmente reconhecida (confissão de fé pública); aquele, em especial os oficiais (presbíteros e diáconos), que juraram em sua ordenação defenderem os símbolos de fé[7] – documentos puritanos! – devem (ou deveriam) ser identificado como neo-puritano e até se orgulhar disso! 

E mais, visto que todos os presbiterianos de verdade são, de algum modo, neo (novos, atuais, agora) puritanos – razões expostas acima – interna corpore, o termo é vazio de outro significado; não passa de um sinônimo de puritano do novo mundo[8], um tanto desmedido – confesso – afinal nem há grandes mudanças teológicas assim entre o presbiterianismo do séc. XVII e o professado oficialmente na IPB, para tornar-se uma vertente doutrinária notável.

No final a pergunta que deve ser feita não é quem são os neo-puritanos ou o que eles pensam. O questionamento sincero – e aqui falando especialmente como pastor presbiteriano aos membros da IPB – é: realmente você é um presbiteriano? Em outras palavras: você conhece, e por isso subscreve, os símbolos da fé presbiteriana? 

Se não, conheça-os aqui, gratuitamente: http://www.ipb.org.br/recursos

Se sim, parabéns, há provas suficientes que você é um NEO-PURITANO!


Das trincheiras 
Esli Soares
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[1] Diz-se do movimento artístico inspirado nos ideais e modelos do Classicismo greco-romano, e também Renascistas, tendências mais clássicas do Barroco francês.
[2] Doutrina econômica voltada para a adaptação dos princípios do liberalismo clássico às exigências do Estado atual. Tem variantes significativas, desimportante para o artigo.
[3] Complementação da teoria de Darwin, reconhece como principais fatores evolutivos a mutação, a recombinação gênica e a seleção natural. E a fórmula vigente do que pode ser chamado evolucionismo.
[4] Há outros nomes, como John Piper, Albert Mohaler, Matt Chandler, Mark Dever, C. J. Mahaney, Joshua Harris, homens de Deus que têm contribuído muito com a fé cristã.
[5] Lima, Leandro A. de. O futuro do calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 71-72 (citado).
[6] Kerr, Guilherme, A Assembléia de Westminster, E. F. BEDA – EDITOR, São Paulo, SP, Brasil 1984.
[7] Confissão de Fé de Westminster, Catecismo Maior e Breve Catecismo.
[8] Referência ao continente americano.

Para saber mais sobre os puritano e a CFW, acesse: http://www.mackenzie.br/7121.html

Para saber mais sobre a Igreja Presbiteriana do Brasil, acesse: http://www.ipb.org.br/

sábado, 3 de setembro de 2016

4 simples razões para batizarmos crianças:

1) A obviedade: Parece certo insistir que nos tempos do Novo Testamento, as crianças simplesmente eram batizadas. É bastante plausível que boa parte (se não a maioria) das famílias que aceitavam a nova fé, e por isso se batizavam, tinham crianças que eram também introduzidas no cristianismo pelo batismo. Assim é razoável pensar que quando o Texto Sagrado disse que alguém foi batizado juntamente com toda a sua casa, ali se batizaram crianças também.

2) A antiguidade: É tão possível que nos tempos apostólicos se praticava o batismo infantil que registros dos primeiros séculos do cristianismo tratam disso:
ORIGENES (185 – 254) disse, “A Igreja recebeu dos Apóstolos o costume de administrar o batismo até mesmo para crianças”.
HIPÓLITO (? - 235) afirma “...e si batizarão as crianças em primeiro lugar. Todos os que puderem falar por si mesmos, falarão. Enquanto aos que não podem, seus pais falarão por eles ou alguém de sua família. Se batizará em seguida os homens e finalmente as mulheres...”;
CRISÓSTOMO (347 - 407) “batizamos também as crianças de pouca idade”;
AGOSTINHO (354 – 430) “desde a circuncisão, que era então o sinal da justificação pela fé, tinha valor também para as crianças, pelo mesmo motivo o batismo desde o momento que foi instituído. (com alterações)”
              Interessante o mais antigo registro contra o batismo de infantes parece ser do herege Pelágio no século V.

3) A continuidade
: Se no antigo modo da Aliança, a circuncisão era símbolo do povo de Deus, que devia ser aplicado, sem demora e sem estorvo, a todo o macho (no 8º dia; Lv 12;3), por que agora o batismo nas águas tendo o mesmo sentido, mas ampliado pela largura da Graça em Cristo, deve ser atrasado? Se os filhos dos cristãos, são também parte do povo de Deus, por que negar-lhes o símbolo? Se a promessa é para a família, que faria a fé obediente, além de batizar o infante?

4) A objetividade: Em Mt 28;18 a 20, quando o mestre passa a Grande Comissão, inequivocamente afirma a necessidade do sacramento do batismo. Daí segue-se que devem ser batizados todos os que estão sendo ensinados a obedecer tudo o que Cristo ensinou, sendo feitos assim discípulos (literalmente cumprir o ide...) Se os filhos dos cristãos devem ser ensinados na disciplina do Senhor (Ef 6;4), logo devem ser batizados!

Conclusão: 
O Batismo Cristão não é para a salvação, nem para o perdão de pecados, nem mesmo de arrependimento. Segundo Jesus (Mt 28:19 e 20), o 'batismo, com água, no Nome Tríplice' é marca inicial dos que aderem a Fé Cristã. E para tal, não há referência a quantidade de água e nem a origem ou local dessa água, ou percentual do corpo que deve ser molhado. Bem como não há idade mínima ou máxima para receber o selo (batismo). Nem mesmo a quantidade assimilada dos ensinos de Jesus (poucos ou muitos) é apontada como qualificante! A REGRA dada por Jesus é simples: Feito discípulo, isso é, sendo ensinado a obedecer TUDO o que Cristo mandou, fez e ensinou, este deve receber a marca de iniciação cristã (Batismo nas águas em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo). SIMPLES ASSIM, tenha fé, OBEDEÇA!
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A citação dos ‘Pais da Igreja’ (ponto 2) foi retirada de diversas pesquisas, inclusive via internet, mas confirmada sobre tudo, nas afirmações similares de F. Turretini (Compêndio de Teologia Apologética, 3, XIX, 7, pág. 508,) e de H. Bavinck (Dogmática Reformada, 4, 10, pág. 503).

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O Livre-Arbítrio

Esse texto é baseado no material pesquisado e no esboço elaborado para o estudo sobre o tema Livre-Arbítrio, na Congregação Presbiteriana do Jardim Eldorado em Porto Velho-RO, ministrado em 28 de julho e 11 de agosto de 2016.
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Há no homem alguma genuína liberdade de escolha? Somos meros bonecos no teatro de fantoches divino? O homem escolhe livremente entre o Bem e o Mal? Um mero sim ou não, seria insuficiente para responder essas perguntas. Há tantos detalhes, correlações, etc., impossível tratar tudo neste curto esboço que tem por alvo, apontar a compatibilidade (ou não) do livre-arbítrio com os ensinos bíblicos.

Livre-arbítrio é um conceito metafísico muito conhecido. Filmes, livros, desenhos aminados, fábulas infantis ou mesmo palestras motivacionais, abordam a vida na perspectiva: “você faz seu destino”, “suas escolhas definirão o seu futuro”, “tudo depende de você”, e assim, no senso comum, nenhuma certeza é mais vigorosa do que esta: “tenho liberdade de escolha, é a partir delas que se constrói o meu futuro”.

Essa ideia ampla tem desdobramento nas mais diversas áreas. Geralmente aparece relacionado a moralidade para justificar a responsabilidade humana. Na ciência, indo de discussões sobre indeterminismo e partículas quânticas (seja lá o que isso for) até análises da psique humana, na busca pela compreensão comportamental e nos estudos sociais. Considerando antropologicamente, livre-arbítrio nada mais é que a capacidade natural de escolher diversas opção moralmente iguais; a simples tomada de decisão; agir conforme à vontade ou razão[1].

O fato é, homens não são máquinas, que seguem simples comandos, e nem meros animais que agem por instinto; são mais (normalmente) que débeis, bestas, bruto ou maníacos. Tomam decisões seguindo a própria vontade, muitas vezes contrariando o bom-senso, instintos de preservação ou emoções e sentimentos fortíssimos como medo, honra ou paixão. E por mais que a sociologia ou a psicologia tente padronizar o comportamento humano e reduzi-lo a ‘equações’ estáticas, na vida comum, no dia a dia – para além de teste simplistas em situações artificias, controladas e obtusas – tudo tende a um personalismo praticamente indeterminado (segundo nossa perspectiva finita e temporal).

Mas como fica quando transita para a teologia? Esse assunto é um verdadeiro “nó górdio[2]”. A bem da verdade o termo “livre-arbítrio” não aparece nas páginas da Bíblia Sagrada. Mas essa capacidade de agir por si mesmo, seguir a própria vontade, ao contrário do que se afirma costumeiramente, não é questionada pela Teologia Cristã genuinamente bíblica. O calvinismo ou a cosmovisão cristã reformada, apenas redimensiona – realisticamente – a força ou efetividade desse conceito. Inclusive parte da academia reformada mais recentemente têm usado[3] livre-agência, para tratar dessa capacidade de livre escolha. Falando simplistamente essa é uma solução semântica, ou seja, não é uma proposta fundamentalmente nova ou diferente para tratar a autodeterminação natural dos entes morais.

Definido então livre-arbítrio (livre-agência) – em termos gerais – como a capacidade agir de acordo com a própria natureza[4], as dificuldades facilmente se desfazem, sem apelar ao paradoxo ou ao mistério, sem negar a responsabilidade humana ou livre-agência e obviamente sem fraudar a soberania divina exaustiva. Ao observar o capítulo IX da CFW[5] percebe-se que essa solução funciona:

1) Criação:
Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado para o bem ou para o mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza. O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder[6].
Adão foi criado ser moral. Capaz de fazer escolhas livres e conscientes, mais que isso, foi dotado de uma natureza sem inclinações que suplantassem sua vontade, quer para o certo quer para o errado. Diferentemente dos demônios que só fazem o mal, e dos anjos que obedecem a Deus, naturalmente o homem podia, sem impedimentos ou compulsões, agir bem ou mal, na prática, obedecer a Deus ou pecar.

Não obstante alguém poderia argumentar: Deus criou tudo bom e assim o homem ao pecar agiu contra a sua natureza (boa), mas ali em Gênesis o sentido de “viu Deus que tudo era bom” é de exatidão – aquilo que é exatamente o que deve ser – doutra feita, sendo a natureza humana comunicada da natureza divina, nada mais óbvio que no homem haver um grau de liberdade e autodeterminação. Assim, ao optar livremente por desobedecer, aceitando a indicação da Serpente, não houve, na decisão (não dar ouvido a ordem de Deus) que levou a Queda, ação contra a natureza!

2) Queda:
O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso[7].
Ao cair de sua inocência inicial, morrer espiritualmente – fruto do Pecado – o ser humano perdeu essa capacidade de livre escolha para o Bem (espiritual). Seu coração, vontade, natureza mudou, agora é naturalmente inclinado para o Mal. A desobediência tornou-se o padrão da conduta. Sua indisposição a Deus o impede de agir corretamente. Tudo quanto faz é essencialmente mau. Logo por sua natureza (espiritualmente) morta, o homem não pode receber, aceitar ou obedecer a Deus. E se não houver uma mudança profunda, uma transformação, uma alteração radical no homem, ele nada pode fazer para o Bem.

3) Redenção:
Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta da sua natural escravidão ao pecado e, somente pela sua graça, o habilita a querer e fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que, por causa da corrupção, ainda nele existente, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau[8].
Transformado, vivificado, nova criatura, nova natureza, Vida dada pelo Espírito Santo, adotado como filho de Deus, capaz de crer e obedecer a Deus, tem a vontade para o Bem (espiritualmente certo) restaurada; é agora capaz de crer em Deus e em suas promessas, isso é, agir conforme essa fé (viver pela fé), ser diligente em sua santificação e submisso a Vontade Santa.

Entretanto os efeitos da Queda – como diriam alguns, a podridão da morte do homem natural ainda permeia essa vida – o pecado ainda é uma ocorrência real na vida desse homem ressuscitado em Cristo. Assim sua vida ocorre sobre a influência de duas forças contrárias: a carne, velho homem vendido com escravo ao Pecado[9], natureza pecaminosa, que não foi totalmente extirpada ainda e o Espírito que fala na Palavra.

Daí temos que a Carne milita contra o Espírito no homem, e não no mundo. Afinal ninguém é tentado por outra coisa que não por suas próprias paixões.

4) Consumação:
É no estado de glória que a vontade do homem se torna perfeita e imutavelmente livre para o bem só[10].
Na consumação dos tempos, quando Cristo em Majestade e Glória reunir todos os seus, e transformar a corruptibilidade em eterna e perfeita comunhão consigo mesmo, o eleito não perderá sua liberdade de vontade, mas sua natureza será tão mudada e seu coração tão fiel que sua única vontade será fazer tudo conforme a Vontade do Pai. Não será por compulsão ou como autômato, mas a mais profunda liberdade para o Bem, o Bom, o Certo. Cumprindo assim a predeterminação que afirma o apóstolo Paulo: sermos a imagem de Cristo (Rm 8;28). Liberdade perfeita!

Conclui-se que livre-agência é uma característica dada por Deus ao homem, criado à sua imagem e semelhança, para que possa, dentro dos limites existenciais, naturais e sociais, expressar-se como ser humano, um ser moral distinto dos animais. Entretanto esta capacidade, está prejudicada atualmente, efeito do Pecado, da morte espiritual.

Já não há liberdade efetiva, pois um dos caminhos diversos foi impedido, e não só exteriormente (Gn 3;24), mas também por morte da boa vontade (Gn 2;17 e Rm 3;10); O homem natural já não procura o bem, nem mesmo o reconhece! Livremente faz aquilo que lhe é natural, escolhe apenas a forma como vai desobedecer. E como escreveu Heinrich Bullinger "... a vontade, que era livre, tornou-se uma vontade escrava. Agora ela serve ao pecado, não involuntária mas voluntariamente. Tanto é assim que o seu nome é “vontade”; não é “relutância”[11].

O homem morto em seus pecados não tem vontade para aquilo que é divino; logo não pode decidir fazer o que é espiritualmente bom. Sabendo que crer no Evangelho é algo bom, que produz bondade, que é segundo o conselho divino, ao ouvir o Evangelho, o homem natural não tem vontade de obedecer (crer) esse Evangelho, pois está indisposto (morto) para Deus.

Naturalmente o homem rejeitará a Graça anunciada (o perdão dos pecados em Cristo). Por si só, porque morto, incapaz de agir de acordo com a justiça divina, permanecerá rejeitando a Graça todas as vezes que está lhe for anunciada. E se nada mudar a condição do homem natural (espiritualmente morto), sua rejeição será para a condenação eterna. Por que a “condição moral do coração determina o ato da vontade, mas o ato da vontade, não pode mudar a condição moral do coração”[12].

E mais no que “depende, no todo ou em parte, para sua aceitação diante de Deus, e para sua justificação diante de Seus olhos, seja o que for, em que você descansa, e confia, para a obtenção de graça ou glória; se for algo menos do que Deus em Cristo, você é um idólatra...”[13]. Ou seja, confiar em si mesmo, no poder de decisão natural do ser humano, torna este ainda mais culpado diante de Deus; “o Livre-Arbítrio foi suficiente para levar Adão para longe de Deus, mas nunca foi capaz de trazê-lo de volta”.

Havendo então a renovação da Graça (ação do Espírito Santo), o homem é habilitado (novamente) para o bem. O homem que antes morto, revive, se instala uma nova natureza capaz de desejar obedecer a Deus. Essa nova natureza, produzirá frutos: a sede pela verdade divina, a fome pela justiça divina, a busca pela vontade divina! Será compatível com a santificação sem a qual ninguém verá a Deus consumada plenamente na morada eterna.

E como bem nos lembra Calvino[14], “Agostinho trata desta questão muito bem, e, como todas as demais, a resolve muito atinadamente, dizendo:”
“...Deus, que é Senhor de todas as coisas, e que a todas criou boas, e previu que o mal surgiria do bom, e soube que a sua onipotente bondade lhe convinha mais converter o mal em bem do que não permitir que o mal existisse, ordenou de tal maneira a vida dos anjos e dos homens que primeiro quis mostrar as forças do livre-arbítrio, e depois o que podia o benefício de sua graça e justo juízo”.
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[1] No sentido de mente, como um todo.
[2] Metáfora comumente usada para um problema insolúvel (desatando um nó impossível) resolvido facilmente.
[3] O uso me parece certo
, entretanto é inegável que a maioria dos teólogos e comentaristas renomados mais antigos usam livre-arbítrio e não livre-agência.
[4] Há certa definição de livre-arbítrio como a capacidade de decidir contra a própria natureza. Esta acepção além de errática e inútil, é biblicamente impossível: Errática – como agir de maneira contrária ao, necessariamente, natural ou ontológico? Qualquer ação assim seria uma sobreposição de uma natureza, que mudada, logo, agiu de modo natural a sua (nova) natureza. Inútil – pois serve apenas para provar uma nulidade; tal coisa não acontece. Indo ao absurdo é como esperar que Deus aja diabolicamente ou que o Diabo aja com a qualidade da benesse divina. Biblicamente impossível – Deus não pode mentir, isso não lhe é natural (2 Tm 2;13), mas alguém duvida que Deus tem livre juízo e autodeterminação?
[5] A escolha da CFW como modelo, põe fim a uma eventual acusação que o tema não é tratado pelos reformados do modo como apresento; sela a certeza da manutenção da confessionalidade calvinista afinal é a mais completa e aceita Confissão Reformada, depurada e consoantes com as outras expressões; o que se provado nela, em geral, de forma convincente, pode se afirmar como cosmovisão reformada.
[6] Do Livre Arbítrio, cap. IX, I e II.
[7] Do Livre Arbítrio, cap. IX, III.
[8] Do Livre Arbítrio, cap. IX, IV.
[9] Carne já liberta mais ainda aleijada, manca e mal-acostumada ao vício do pecado.
[10] Do Livre Arbítrio, cap. IX, V.
[11] Segunda Confissão Helvética, IX, 2.
[12] A. A. Hodge – CFW Comentada, pág 225.
[13] A. M. Toplady – Contra o Arminianismo e Seu Ídolo Dourado, o Livre-Arbítrio, pág 3.
[14] Institutas da Religião Cristã, UMESP, pág 409.

sábado, 23 de julho de 2016

O Ofício Feminino


Este artigo foi baseado no estudo apresentado na Congregação Presbiteriana do Jardim Eldorado em Porto Velho - RO em 22 de julho de 2016.


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Numa rápida pesquisa verifica-se que desde meados do séc. XX, mesmo que poucas, começou-se a ordenar mulheres ao sagrado ministério; já em 1948 a Igreja da Dinamarca, de teologia luterana, teve a sua primeira mulher-padre. A Igreja da Suécia (também luterana) que ordena mulheres desde 1958, tem desde 2013 uma arcebispa (Antje Jackelén). Especialmente depois da revolução sexual americana dos anos 1960, há pressões crescentes para que elas exerçam TODAS as atividades tradicionalmente masculinas. A igreja obviamente não está imune a isso, tanto que muitas mulheres estão sendo ordenadas em ofícios eclesiásticos. Embora igrejas de matriz Romana (e similares) ou as protestantes mais conservadoras, ainda não ordenem mulheres, no Brasil, grupos históricos de pentecostais, batistas e metodistas, já tem em seus quadros pastorais, mulheres ministras e dentro do movimento neo-pentecostal já há muitas pastoras, bispas e até apóstolas, algumas inclusive famosas.

Ficam as perguntas:
Mulheres podem pastorear? É correto elas pregarem? Qual o papel feminino na Igreja? Responder essas perguntas é o alvo desse estudo. Seria isso um problema, um erro, uma heresia? Mulher pode ser pastora? O caso é apenas com o título ou mesmo extra-oficialmente uma mulher ministrar (oficiar, servir, atuar como pastor – pregar, orar, ensinar, dirigir culto e etc.) está errado? No que essas questões interferem na vida prática da igreja? Que doutrina, dogma, entendimento ou tese teológica trata desse assunto?

Numa discussão sobre o assunto normalmente os defensores usam três linhas de argumentação:

1) eventuais textos bíblicos de mulheres na liderança;
2) a falta de regulamentação bíblica sobre o assunto;
3) a culpa é do machismo.

Está última é a mais fácil de desmontar, afinal, Deus não é movido por paixões humanas, não está sujeito aos caprichos de gente. Se a Bíblia é a Palavra de Deus, a Verdade, e se Deus é o Senhor, como afirma sua Palavra, então esse argumento deve ser totalmente descartado. A Palavra de Deus jamais seria afetada por vontade humana e por isso obviamente tal assertiva também deve ser ignorada me relação os escritores da Bíblia, pois foram “santos homens que falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”.

Resta analisar as tais passagens onde mulheres são líderes e verificar a conexão – ou falta dela – com o ofício pastoral. E depois avaliar as definições bíblicas desse ofício, se há a possibilidade dessa ordenação feminina:

Textos Bíblicos que atestam a liderança feminina:
Normalmente o primeiro grupo de textos apresentado para provar a liderança feminina na Bíblia, é aquele em que aparece as profetisas. Esse termo, (נְבִיאָה - neviah ou nebeyah e προφητις – profetis, em hebraico e em grego respectivamente), originalmente é o feminino de profeta e significa porta-voz, orador(a), profeta(iza). Ou seja, alguém que falava, fazia uso da oratória, anunciava algo ou mesmo dava um recado, poderia naturalmente ser chamado de nabiy (profeta, quem profere)! Especialistas apontam 3 significados para “profetisa” no Texto Sagrado: quem traz profecias, esposa de profeta e quem conduz (ou compunha) os louvores (cântico) feminino.

Só aparece oito vezes em toda a Bíblias. Nas duas ocasiões do NT – uma é para Ana, senhora idosa que servia diariamente no templo; pouco se sabe dela, provavelmente Lucas usa o termo como um elogio pela piedade, a outra, é uma falsa profetisa condenada em Apocalipse*, que certamente não serve para o caso. No VT há seis ocorrências – Uma referente a mulher de Isaías[i], uma a Noadia[ii] (falsa profeta) – não comentarei – uma referente a Míriã, outra a Débora e duas a Hulda.

Miriã - Ex 15:20 - A profetisa Miriã, irmã de Arão, tomou um tamborim, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamborins e com danças. Nesse caso específico, fica claro pelo contexto imediato que a ocorrência tinha mais a ver mais com alguém conduzindo as músicas, talvez uma dirigente de canto, quem conduzia outras mulheres nos louvores, que com alguma função especificamente profética. Observe que não há nenhuma profecia associada a Miriã. Desse mesmo modo podemos pensar na profetisa Débora, que foi juíza em Israel (capítulo 5 de Juízes). Sem sombra de dúvidas ela falava (proferia...) a Nação do alto de seu cargo de magistrada civil. Ela corajosamente se envolveu em assuntos militares, entretanto não há registro de alguma profecia (no sentido clássico) vinda por ela, mas interessantemente ela também cantou sua vitória, depois do fato. Então temos Hulda (2Rs 22:14 e 2Cr 34:22), que diferentemente vemos com clareza: ela profetizava, trazia palavras do Senhor.

Note que destes oito usos de “profetisa”, duas referências são ruins, quatro são diversas (cantora, esposa de profeta, e honraria, estão ligadas à outras acepções do termo) sobrando 2 outras referências para uma mulher, Hulda, que sem dúvida alguma era profetisa no modo desejado para a argumentação. Perceba a desproporção, há mais de 420 ocorrências do termo profeta (masculino) na Bíblia, apenas uma vez “profetisa” é usada no sentido de quem declara o desígnio de Deus! Entretanto, essa profetisa nada falou acerca do Messias, nem exerceu ofício profético e nem foi lembrada pelos apóstolos. O autor de Hebreus[iii] lembra até de Baraque mas não de Débora. Citou Sara, por ser mãe, Raabe, por ter traído seu próprio povo, por temor ao Senhor. E que mulheres (provavelmente esposas) receberam seus entes ressuscitados, mas nenhuma letra da profetisa (no melhor do termo) do VT, provando que não “tem nada contra as mulheres”, mas nada fala de alguma profetisa!

Outro possível texto está em At 21;9, as filhas de Felipe; mas se elas eram alguma autoridade, ou traziam instruções do Senhor sobre a Igreja porque quando Deus quer falar com um de seus apóstolos, Ele leva um profeta de outro lugar, embora estivessem ali 4 jovens que profetizavam? Mas se elas eram apenas dirigente do contracanto feminino, a situação fica absolutamente clara! O que bem pode oferece uma boa explicação para a profecia de Joel[iv].

Pode parecer ridículo usar Gn 29:9 “Falava-lhes ainda, quando chegou Raquel com as ovelhas de seu pai; porque era pastora” para validar a liderança das mulheres na igreja, mas há gente – líderes e estudiosos (?) – que tenta ir por essa via... analisemos então o caso de Raquel: não precisamos de grandes esforços para demonstra que ali era um trabalho secular que em nada se liga ao ofício eclesiástico. Era um costume da época mulheres cuidarem de rebanhos. Zípora[v] esposa de Moisés apascentou junto com suas irmãs, as ovelhas do pai; Rebeca[vi] parece que apascentava ovelhas, conjuntamente a outras jovens de sua época. Entretanto esse fato, diferentemente de servir de prova para a tese, ou mesmo de um exemplo bíblico de liderança feminina, esboça o contrário: mulheres trabalhavam – o tal machismo na Bíblia cai, já, aí! Veja, não tem nada a ver com cultura, afinal mulheres podiam pastorear animais. Isso não é pouca coisa, era administrar bens preciosos, especialmente numa cultura basicamente agropecuária, mesmo assim não há uma só referência delas administrarem algo divino ou cúltico em toda a Escritura Sagrada.

Outras histórias menos diretas também, às vezes, são apresentadas para justificar a liderança feminina no contexto eclesiástico. É o caso da Rainha Ester[vii]. Mas antes de pensar que ela é um exemplo de “feminismo” na Bíblia é bom notar duas coisas: primeiro - Ester era escrava, havia sido forçada a casar com o rei; segundo: tudo que ela consegue é por submissão ao marido, e não com a autoridade real! De igual modo lembram da mulher samaritana que se encontra com Jesus no poço de Jacó (João 4). Que ela apontou aqueles homens para Cristo, não há dúvidas, mas daí a concluir que ela pode ser um exemplo ou argumento a favor do ministério pastoral feminino, chega a ser bobo! Ela nem tinha entendido o Evangelho, nem se submetido a Cristo como seu salvador; a narrativa de Lucas demonstra que ela mal alimentava uma fé “naquele homem”... Um terceiro caso é o das mulheres na ressurreição de Jesus[viii]. Elas serem as primeiras a receberem a notícia e até a verem Cristo ressurreto demonstra o carinho de Jesus por elas? Talvez! Inverte a valorização social vigente; realmente vai contra o tal machismo? Quem sabe! Mas em nada toca no ofício pastoral ou aponta autoridade religiosa. O fato é: enquanto elas estavam, de madrugada, indo servir a memória de Jesus, submissas, atendendo aos afazeres comuns de mulheres, Ele se dá a conhecer! Precisa ser mais claro que isso?

Textos Bíblicos que definem o ministério pastoral (ofício eclesiástico):
E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres (Ef 4;11). Deus estabeleceu os pastores para a Igreja; é Ele quem institui esse ofício. Então, Ele diz como deve ser. Note que o apóstolo usa os termos "pastores e mestres" (termos – masculinos! – no plural, o que impede o entendimento dessa passagem se referindo exclusivamente a Pedro[ix]) exaurindo todas as possibilidades de atuação, seja o cuidado paternal, seja o cuidado professoral, na igreja – os termos acabam remetendo ao ofício dado por Deus a Adão, o homem (cuidar e cultivar; Gn 2;16) no Éden antes mesmo da criação da mulher, que só mais tarde foi criada como auxiliadora; isso é, o ofício pastoral eclesiástico está restrito aos homens, ao macho. Coisa que se encaixa perfeitamente com Tito 1;6 (...marido de uma só mulher...) ou Timóteo 3,2 (...esposo de uma só mulher...) – onde mais uma vez o apóstolo diz que homens devem estar a frente da igreja – bem como com 1Tm 2:12 (E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio.)... nem precisa explicar!

Concluindo:
O ofício pastoral na Igreja está em contraposição ao sacerdócio no VT que acabou porque Cristo iniciou um outro sacerdócio (leia Hebreus 7). Essa função pastoral é o ofício dos dirigentes da Igreja. O termo pastor é em alusão a condução e cuidado do rebanho, que o próprio Jesus chamou de suas ovelhas. Em toda a Palavra se verifica que homens são os líderes do Povo de Deus (sua Igreja). Desde Adão é assim, e será assim até o fim... Toda a Bíblia expõe a veracidade desse entendimento: mulheres (esposa) desde o Éden são vocacionadas para serem auxiliares dos homens (maridos).

É fácil notar, não há uma única sacerdotisa (da religião de Deus, claro) na Bíblia – isso diz muito sobre o ofício feminino. O simples fato de Cristo ter escolhido 12 homens para serem os fundadores Cristianismo (Ap 21;14) é outro demonstrativo disso. E mais, esses apóstolos nunca indicaram a possibilidade de mulheres estarem à frente, conduzindo a Igreja! Nenhum dos (cerca de) 40 autores da Bíblia era mulher. A única mulher que “dirigiu” (na verdade julgou) a nação de Israel foi Débora (num contexto de irresponsabilidade masculina). E mais, foi exatamente na primeira ocasião que uma mulher “ministrou” no lugar de um homem, que o Pecado entrou na História (Gn 3).

Quando Paulo afirma que o Espírito selecionou uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outro para pastores e mestres, ele claramente delimitou esses 4 ofícios aos homens, não há espaço aí para mulheres. Ora, se mulher não pode exercer autoridade de homem, e administração dos trabalhos da Igreja são funções restrita a eles, logo, mulheres não devem supervisionar[x] as causas do Evangelho.

As pastoras de ovelhas servirem de exemplo para permitir mulheres pastoreando a Igreja é como levar porcos no lugar de cordeiros para sacrifício ao SENHOR, só porque se fazia esse tipo de sacrifícios a outros deuses. Em outras palavras, é a própria expressão de abominação, isso é, fazer aquilo que Deus não ordenou! Alegar que a ausência de mulheres na liderança a eclesiástica é mero tabu, é de um simplismo inconveniente (ouso dizer, diabólico!), afinal, Jesus era tão revolucionário, tão polêmico, tão inovador, tão despreocupado com tradições, legalismo ou costumes que a única razão para ele não ter comissionado mulheres para serem apóstolas, é o simples fato de não querer mulheres na liderança da Sua Igreja. Daí estou absolutamente certo que ainda hoje ele não o quer (afinal seria estranho – pra dizer o mínimo – um Deus imutável, mudar de opinião). Mas acima disso tudo, ou confiamos que a Bíblia é a palavra de Deus inerrante, completa e suficiente ou então seremos como tantos outros cegos guiando cegos.

Enfim, não há meio verso na Bíblia suportando essa bizarrice, e toda a sã doutrina vai diretamente contra essa heresia.

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* Lc 2;36 e Ap 2;20 respectivamente;
[i] Is 8:3;
[ii] Ne 6:14;
[iii] Hb 11;32;
[iv] Joel 2; 23 a 32, cumprida em At 2;17 a 21;
[v] Ex 2;16;
[vi] Gn 24; 11 em diante;
[vii] Leia o livro de Ester todo;
[viii] Mt 28;1 a 8;
[ix] Na passagem de Jo 21;15 a 17, é certo dizer que nem mesmo Pedro entendeu que essa atribuição era exclusividade sua, afirmar isso é valorar o tal trono de Pedro, tão diabólico!
[x] O termo ‘bispo’ significa, superintendente, supervisor, talvez administrador, gerente, e certamente no contexto bíblico, pastor;