domingo, 24 de agosto de 2014

Mea (e meia) Culpa!

Um amigo, presbítero, muito zeloso, piedoso e sábio, me chamou a atenção sobre o trecho final de um vídeo que postei no Facebook há alguns dias. Era a interpretação de Almir Sater – um dos melhores cantores, compositores e músicos desse nosso país – da música ‘Tocando em frente’ de sua autoria (seque o link). Nos 7'40" o artista diz, falando da música, considerada uma obra prima (inclusive por mim): "...acho que não tenho talento para fazer uma música, em um minuto, dois minutos assim... acho que essa foi psicografada."

Não sei se o Almir Sater é espirita ou se ele acredita em psicografia e nem se ele realmente atribui ao {suposto} fenômeno espiritual, a composição da música. Acho que a fala dele é mais uma modéstia mal direcionada. Mas na verdade não me importa. Claro que não compactuo com a fé dele, e nem desconsidero tal coisa, a relegando com crendice sem valor (há muito valor nos erros comuns; eles são mais fáceis de seduzir e nos vencer).

A fé espírita, essa que propõe a psicografia, é uma fé comum aos brasileiros, mais ainda o baixo espiritismo, que é difundido, cavalgando na superstição e sincretismo, ao povo brasileiro. Tais crenças e misturas há muito perturbam a cristandade nacional. Vemos a cada dia uma profusão de práticas, ditas evangélicas, que nada mais são de que uma versão gospel desses pensamentos.

Mas o vídeo cumpria outra função (confesso que não vi todo o vídeo antes de postar e ser alertado pelo irmão, afinal são 7'57"). Há várias séries de postagem no meu mural no Facebook. Há PIADAS REFORMADAS, PENSE NISTO EM OUTUBRO, TEOLOGIA DE UM EVANGELHO ÍNTEGRO, dentre outras. O vídeo figurava numa chamada "ISSO É ARTE!". Onde o objetivo é expor a beleza pela Beleza, e afirmar com ela (Beleza) que a Arte é bela e facilmente compreensível (no que diz de reconhecível), pois é um valor que transcende a cultura, e posta-se como algo sublime, talvez – como diria Tolken e/ou Lewis – a centelha divina (algo que alguns chamaria de Graça Comum, eu ínsito que seja o remanescente do IMAGO DEI).

Graças ao pensamento Reformado* a Arte foi libertada de suas amarras com a religião e desde então, cresce e se desenvolve numa esfera própria, e tem nessa esfera (ou deve ter) seus argumentos, força, virtudes e regras. Mas tal autonomia (ou soberania relativa) – das esferas – não a isenta de Deus e nem de sua imanência e transcendência.

Como diria Kuyper: “Não existe sequer um centímetro de nossa natureza humana do qual Cristo, que é soberano de tudo, não proclame ‘Meu!’” A arte é divina, e o que não é bom, não é arte, não é dEle. Mesmo que tolamente o artista afirme que sua arte (e naquele caso era arte mesmo) veio de um espírito iluminador do além-morte, ou que tal resultado (a peça de arte) tenha sido adquirida a partir de uma viagem transcendental ao nirvana, via chá de cogumelos ou qualquer outro psicotrópico.

Assim fala o apóstolo Paulo “que digo, pois? Que o sacrificado ao ídolo é alguma coisa? Ou que o próprio ídolo tem algum valor? (1Co 10;19)” Ora, nada é dado ou recebido dessas forças, pois elas nada são; engano e falsidade, nada mais. Então o que é bom, é bom, e sem peso na consciência, pode ser recebido, porque do Senhor é a terra e a sua plenitude. Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. Se eu participo com ações de graças, por que hei de ser condenável por causa daquilo por que dou graças? Ou ainda, esquecemos de que toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança?

Mas é claro que eu não me deixarei ser controlado por nada disso. Afinal tudo me é lícito, mas algumas coisas não convêm. Sabemos que para os puros todas as coisas são puras (obviamente aquelas que não são diretamente prescritas como impuras na Bíblia; tal passagem não é uma desculpa para a licenciosidade – em si a licenciosidade ou anomia e um pecado, então algo feito nela ou por ela será pecaminoso). Mas tanto pelo bom testemunho, pela separação entre o certo e o errado, pela discrepância fisionômica ou estética do mal, quanto pelo amor ao fraco na fé, devemos tomar muito cuidado como nossas ações, palavras, comentários, e agora vídeos e curtidas.

Faço mea (e meia) culpa. Não assisti todo o vídeo, se tivesse visto a fala do artista, teria no mínimo comentado. Mas Deus transforma tudo em benção. A situação serviu para mostrar que tem irmãos zelosos dispostos a comentar sobre as atividades de um pastor (nossa igreja não é subserviente aos líderes). Há gente interessada em pureza, sem que isso se torne legalismo. Deu-me a oportunidade de refletir e escrever alguma coisa sobre o assunto. E certamente outros textos, mais completos, virão. Seja sobre a Arte como algo divino, sustentando com argumentos os post da série ‘ISSO É ARTE!’, seja falando sobre a dicotomia existente, a necessário e a errática, entre o Sacro e o Secular, ou Santo e Profano. Seja em uma pastoral sobre liberdade cristã, ou numa defesa da autonomia (ou soberania relativa) das esferas.

sábado, 23 de agosto de 2014

O Evangelho Amigo

A Bíblia, a Palavra de Deus, fala que alguns foram considerados amigos de Deus. Um desses é o tão conhecido Abraão. Na carta do Pastor Tiago, lemos no capítulo 2; 23: “Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus”. Para esse pastor – um dos principais líderes da igreja primitiva, a igreja cristã formada pelos apóstolos de Jesus, a partir da comunidade de discípulos que andaram com Cristo – contado como uma das colunas da igreja juntamente com os 12 apóstolos, pensava que foi a fé de Abraão que fez toda a diferença, lhe imputando justiça e lhe conferindo o incrível título de amigo de Deus.

Talvez você pense que todos sejam amigos de Deus, ou que Deus seja amigo de todo mundo, afinal, Ele é bom, certo?! É verdade, Deus é bom, e por isso mesmo é que Ele não é amigo, naturalmente, do homem. Seres humanos são naturalmente maus, e inimigos de Deus pois Ele é santo e o homem, naturalmente, um pecador. A Bíblia diz que todos, sem exceção, naturalmente estão indispostos para Deus, que não há justo, nem um sequer, que não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer.

Pode parecer um diagnóstico duro e cruel, mas lembre-se que nossos pecados fazem separação entre nós e Deus, que Ele é tão Santo que não pode contemplar, permitir a presença, do pecado. E que se dissermos que não temos pecado, coisas que nos afastam de Deus, fazemos de Deus um mentiroso. É um fato, somos mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus. A verdade é que temos um grande problema: Deus está irado com cada um dos homens! Por quanto o que se pode conhecer de Deus é claramente revelado, a todo o instante, na Criação, mas nós por causa da nossa injustiça escondemos a verdade de Deus. E preferimos nos dedicar a nossas próprias causas e ignorarmos quem Deus é.

Mas, pelo que lemos, sabemos de um homem amigo de Deus – dentre outros – e também que isso foi pela fé dele. Mas que fé era essa? Que crença de Abraão foi capaz de fazer a paz entre ele e Deus?

Todo o capítulo 2 de Tiago, mostra-nos um pouco do que, em certo sentido, Abraão fez. É isso mesmo, a fé de Abraão o fez agir de determinado modo, modo esse prescrito pelo próprio Deus. É isso que a Bíblia diz no verso 17, a fé sem obra é morta! Mas antes de você se animar e achar que falamos de boas obras, assistência social, ou outra coisa feita “de coração” para o próximo. O exemplo dado pelo próprio autor da carta é bem interessante e severo.

No verso 21 diz: Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? Percebeu, Abraão amou mais a Deus que ao seu próprio filho! Ele estava disposto a matar seu filho, seu único filho, em obediência à Vontade Divina.

Jesus disse, em outras palavras, que é assim mesmo. Quando perguntado qual era o maior mandamento de Deus aos homens, aquilo que Ele exigia acima de qualquer outra coisa. Sua resposta foi direta, como conta-nos Mateus, um dos 12 discípulos de Jesus, no seu livro sobre o evangelho, cap. 12, verso 30: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força”.

Se você amar a Deus de todo o seu coração, alma e entendimento, nenhum pedido dEle será ignorado por você, inclusive aquele para que nós abstenhamos dos prazeres carnais pecaminosos. Ou do agendamento semanalmente um encontro formal para prestarmos culto exclusivo a Ele, sem para isso utilizar representações visuais, ou mesmo que cuidemos da honra de seu santo nome.

Por tudo isso peço, insistentemente, a cada um, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

Foi para nos dar a capacidade de amarmos a Deus desse modo, contra nosso próprio egoísmo, que Jesus, o próprio Deus, se encarnou, e habitou entre nós, dando sua vida como oferta pelo nossos pecados, fazendo assim a paz entre nós e nosso Deus. Isso é o Evangelho!

A CONCEITUAÇÃO TEOLOGICA DA ADORAÇÃO BÍBLICA

Esse Deus, supremo criador, passa a pôr ordem no caos (Gn 1, Sl 74) em proporções universais. Os relatos da Criação nos dois primeiros capítulos de Gênesis mostram uma organização, um controle diretivo e não somente potencial. Deus levou seis dias para criar o mundo. Há um método, uma ordem, um motivo, há um propósito.
Tudo que foi escrito deve ser entendido na perspectiva humana, como um relato, a intenção é de contar a história para alguém, e com isso formar algumas ideias. Gênesis é o início da revelação de Deus e não o início do relatório científico[1] da criação. Ao ouvir por que as coisas foram criadas, e por quem (hw"åhy‘, ou IAHWE), é presumível, não só a admiração, mas que um forte senso[2] de cuidado seja instalado no coração do homem.
É exatamente por isso que ao questionar a afirmação de Deus ter criado tudo, vemos expressões como “A Morte de Deus” ou “O Homem que matou Deus” – afinal, sem um criador, somos órfãos, filhos de chocadeira, “não há ninguém lá em cima que olhe por nós”.
Deus ao colocar no cânon, o Início (Gênesis), quer com isso se revelar, não só como o Deus Único, criador de tudo e todos, mas também, apresentar-se como o poderoso Deus que escolhe, institui e preserva o povo de Israel. Gênesis tem o propósito de gerar naqueles que saíram da terra de escravidão uma identidade nacional, transformando um bando de parentes em uma nação.
Uma nação só existe com o estabelecimento de um poder – a Constituição, por exemplo, é o poder máximo do estado de direito – nos tempos de Moises esse poder poderia ser um deus, um patriarca, um poder militar, etc. algo que servisse de elo. Deus, através de Moises, progressivamente estabelece esse Estado, reivindicando para si a autoridade magma. Deus é em última instância o poder máximo da nação Israel, por isso é nEle o valor de Israel como um povo (Is 41;8,14), o valor da nação reside em Deus, o criador.
Embora Deus, o criador, é quem prometa a Abraão fazer de sua descendência uma grande nação, e que o Pentateuco conte a saga dele e de seus descendentes. Os 5 livros não foram escritos com o propósito final de serem para o povo somente relatos históricos ou documentos do poder público (códigos civis, penal, religioso, etc.). Os livros registram o estabelecimento de um pacto, entre o Deus e o homem, IAHWE e Adão. Por isso no V.T. não aparece a ideia de Deus-Pai e sim de Deus-Criador. A relação é contratual, tem-se a descrição das cláusulas do contrato (obediência, construção da arca, circuncisão, etc.) e suas observações na vida. Aparentemente cumprindo todas as legalidades, alguém poderia afirmar ser adorador de IAHWE (Jo 8;31 a 47), com essa compreensão, que é ainda limitada, veríamos os termos adoração, culto, liturgia, serviço religioso, reverência e religião exatamente como os fariseus, somente como normas, leis, regras, circunstâncias, festas e datas (Is 29;13). Nessa visão estabelecer linhas diretas e negar qualquer desvio fica realmente muito fácil.

No pacto:

É imposto, então, clarificar no V.T. e no N.T., na antiga aliança e na nova, a adoração, e na acepção pactual elaborar uma compreensão ainda mais completa da Adoração Verdadeira, para então, de posse dessa conceituação bíblica, progredir na proposta temática.
Dentro das doutrinas reformadas a relação entre Criador e criatura é entendida como um contrato, um pacto. Com Adão no paraíso foi assim. Deus criou o homem segundo a sua imagem e semelhança. Deus, o Senhor, colocou Adão, o servo, no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo e o orientou sobre como deveria ser o seu procedimento ali (Gn 2, 4 a 25) expondo as consequências de violar essas condições.
A cláusula desse contrato que trata das punições (consequências) do descumprimento de algum de suas partes (v.17), é exatamente o que obriga o ser humano a uma vida distante de Deus, longe do paraíso, expulso da presença divina, ou seja, o Pacto vigora! Com Noé (tipo de Cristo), como agente do pacto, foi diferente[3], a sua obediência o tornou uma benção para toda a criação. Com Abraão (outro tipo de Cristo) também, ele creu e isso lhe foi imputado como justiça, e nele todas as nações da Terra seriam abençoadas, a sequência dos patriarcas confirma essa continuidade do Pacto com Adão (o homem).
Êxodo, então, passa a contar a libertação da escravidão imposta pelos egípcios aos descendentes de Abraão – que é descendente de Sen, filho de Noé, descendente de Seth, o filho de Adão, o homem. O povo de Israel, por sua vez, é introduzido como agente desse pacto, reafirmado por Deus, que passa sistematicamente a criar um Estado que vivesse sob a égide dessa revelação. Todo o V.T. é baseado no cumprimento das cláusulas que foram anunciadas por Deus no monte Sinai.
Ao considerar as revelações do N.T. (Novo Testamento) sobre o Pacto no V.T. temos uma visão ainda mais clara de sua continuidade proposital. Daí o sacrifício de Cristo, não só é a continuação pactual – como foram Adão, Noé, Abrão, Moises, Davi, Salomão, Daniel, Esdras e etc. – como de fato é o cumprimento pleno desse Pacto. É o sacrifício de Jesus que validou a adoração sob a Lei (sacrifícios e correlatos) e o que valida a adoração da Igreja (adoração atual). Nisso exclui-se a possibilidade de duas realidades ou dispensações: Lei versus Graça. Há uma única verdade: por meio de Cristo, todos, quer judeus, gregos, troianos ou goianos, são unidos a Deus, em Cristo, e somente em Cristo pode-se adorar ao SENHOR (cap. XXI, CFW).
Adoração a Deus é um relacionamento proposto, providenciado, mantido e possibilitado por Deus, e em última análise, consumado por Cristo.  O sacrifício de Jesus é o que validou a adoração sob a Lei (sacrifícios e correlatos) é o que valida a adoração da Igreja (adoração atual). Assim, exclui-se a possibilidade de duas realidades ou dispensações. Há uma única verdade: por meio de Cristo, todos, quer judeus, gregos, troianos ou goianos, são unidos a Deus, em Cristo, e somente em Cristo pode-se adorar ao SENHOR (cap. XXI, CFW).
 Analisando a resposta de Jesus ao questionamento sobre a validade do culto tradicional dos samaritanos (Jo 4;21), tem-se uma ampla visão de como para ele a adoração a Deus era central em seu ministério. A mulher, que por ‘acaso’ se encontra com Jesus no poço de Jacó, quer saber aonde era o local certo para adorar (prestar culto) a Deus, no monte Gerezim, o local perto de Sicar onde durante séculos os samaritanos adoravam e ofereciam seus sacrifí­cios ou no Templo de Jerusalém.
Jesus desconsidera essas duas possibilidades declarando que somente “em espírito e verdade” os verda­deiros adoradores adorarão (se submeterão) o Pai (Jo 4;23). É interessante perceber a introdução dessas restrições[4] na adoração. Cristo afirma que somente os verdadeiros adoradores adoram realmente ao Pai, pois só eles O adoram em espírito e em verdade. É claro, que nesse contexto, Cristo fala da inauguração do Reino da Graça, o tempo chegado aonde esse tipo de adoração acontecerá, isso nos faz entender que a adoração verdadeira só é possível através de Cristo (Cap.XVI, CFW).
É razoável pensar que se existe a adoração em espírito e em verdade, existe, também, uma adoração carnal e falsa. Cristo ao qualificar como espiritual e verdadeira a atividade dos adoradores procurados por Deus (Jo 4;23) faz clara distinção destes com os dois outros grupos em discussão.
Analisando esses dois grupos, judeus e samaritanos, percebem-se alguns princípios que se seguidos não faz automaticamente de alguém um adorador verdadeiro: historicidade. Ambos, judeus e samaritanos, faziam o culto assim há tempos, era, não só, costume, mas também cultura – claro que com pesos diferentes para cada grupo; prescrição. Para os judeus, o sacrifício no Templo era a clara e inquestionável observação a Lei de Deus, embora, tanto essa “observação” como essa “lei de Deus” tenha sido questionada pelo próprio Deus; localidade. Havia razões pelas quais se adorava a Deus nesses locais: O monte Gerazim foi palco de acontecimentos importantes da revelação Divina, e o Templo, embora tenha sido até essa ocasião, refeito duas vezes, segue de alguma forma – “de alguma forma” ideia melhor explicada mais a frente – a prescrição para ser o Tabernáculo ou morada de Deus entre os homens; sinceridade. Seria imprudência nossa pensar que os samaritanos iam ao monte adorar a outro deus, ou que o faziam sem algum grau de devoção, da mesma maneira para com os judeus no Templo, embora houvesse ali às portas do Templo, charlatães, especuladores e ladrões a grande maioria realmente tinha um sentimento de religiosidade.
E importante, ainda, recordar que Jesus não afirma que os samaritanos não adoravam a Deus, ao contrário, eles O adoravam, só não conheciam! O rev. Russel Shedd (1987) afirma que “Mais do que inútil é o culto que desconhece Aquele a quem de­vemos submissão e lealdade. Por isso, o grau de beleza de um culto, o número de adeptos, ou a sua antiguidade, não tem importância se o adorador não estiver em contato vital como Deus único”. Por fim a afirmação de Jesus “a salvação vem dos ju­deus”, provavelmente fazendo referência as numerosas profecias do A.T. ao próprio respeito, trata do fato de Deus revelar a salvação primeiramente a Israel (Rm 9;4) e não de qualificar adoração dos Judeus como melhor ou mais aceita do que a dos samaritanos.
A adoração aceitável não está baseada em nenhuma observância legalista. Homens como Abel, Enoque, Noé, Abraão, Moisés obtiveram bom testemunho pela fé (Hb 11). Eles adoraram segundo os padrões de Deus, isto é, de acordo com os mandamentos de Deus, esperaram contra a esperança e contemplaram de longe o objeto da sua fé, pois eles entenderam que a promessa – remissão em Cristo – era de uma pátria superior (v.16). Para eles não tinham sido entregues os 10 mandamentos e nem as leis cerimoniais, eles não observavam datas e épocas do ano e não havia um edifício consagrado ao Senhor. Eles obtiveram bom testemunho pela obediência a uma lei maior, uma lei que deve ser, como foi para este, o parâmetro para adoração da Igreja Cristã.

Cláusula primeira:

Jesus esclarece qual era essa lei maior. Quando perguntado sobre qual era o maior mandamento, ele, afirma que a grande lei que os homens devem seguir é amar a Deus de todo o coração. Ele não citou um dos 10 mandamentos, ele não considerou o decálogo como fonte do maior mandamento. Cristo sita uma passagem de Deuteronômio 6;5. Para Jesus, a ordem maior que Deus impõe ao homem é amá-lo e por isso servi-lo de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento.
Esse amor a Deus deve ser entendido como a acepção verdadeira da adoração exigida e – claro – possibilitada por Deus (Ex 20;6). Duas razões podem ser levantadas para sustentar essa afirmação: Cristo afirma que essa é a Lei de Deus, o mandamento máximo divino, a razão pela qual os seres humanos existem, o propósito da criação. Amar a Deus é o objetivo que o Criador estabeleceu para o ser humano, é um decreto imutável do Senhor (item V, cap. III CFW, livro I, cap. I, IRC). A segunda razão é teológica. A expressão do ‘caput’ da lei prescrita é similar ao entendimento do encadeamento etimológico[5] abstraído no N.T. e na LXX.
O termo traduzido por amar é γαπσεις que foi utilizado na LXX para traduzir o verbo T'êb.h;a'äw> do hebraico (cerca de 200 ocorrências). Esse termo em hebraico foi utilizado para descrever o sentimento de Abraão pelo seu filho Isaque (Gn 22;2), o amor de Jacó por Raquel, pelo qual trabalhou sete anos (Gn 29;18), e a amizade profunda de Jonatas e Davi (I Sm 20;17). O verbo traz a ideia do amor incondicional, altruísmo. A maior lei de Deus manda que ao homem O ame mais do que a si mesmo, que considere o Senhor mais importante e digno de atenção e reverência, o principal, o primeiro, a quem todas as coisas devem ser oferecidas primeiramente, em detrimento de si mesmo, a despeito inclusive de faltar para si.
Mas Jesus acrescenta que esse mandamento se traduz, também, numa atitude de amor para com o próximo. Ele cita Lv 19;18, afirmando que amar (T'êb.h;a'äw>)) ao próximo como a si mesmo é o segundo mandamento, semelhante (aquilo que se parece ou é próximo de...) ao primeiro. Os mesmos termos γαπσεις e T'êb.h;a'äw> são usados no segundo mandamento de Jesus. A segunda maior lei de Deus é tratar o outro como a si, da mesma maneira que alguém si ama deve amar ao outro, buscar o bem do próximo com o mesmo cuidado e determinação dispensados na busca do bem para si mesmo. A ideia não é “meu direito acaba aonde começa o do outro”, forma passiva, mas “meu dever é o direito do outro”, forma ativa. E mais, essa lei tem uma importância maior. Amar (γαπν) ao próximo é mais importante que todos os outros mandamentos, ficando diretamente abaixo de amar (γαπν) a Deus. Não se pode – não aqui – entender essa passagem de forma simplista. Jesus não está simplesmente resumindo os 10 mandamentos em 2, como sugerida pela explicação clássica – boa e correta, porém curta – de que “amar a Deus...” é o resumo dos 4 primeiros mandamentos e “amar ao próximo...” dos 6 seguintes.
Cristo afirma, peremptoriamente, que estes dois mandamentos são os que dão base a tudo que a Lei (Torah) regulamenta, e por causa deles os Profetas trouxeram julgamento e condenação às nações (Is 1;2).  Provavelmente os fariseus que perguntaram a Jesus qual o maior mandamento, queriam usar a resposta dele como arma para questioná-lo e por fim acusá-lo de falta para com alguma lei ou interpretação da lei (Mc 14;55, Jo 8;6). Eles não estavam interessados em ouvir uma hierarquização da Lei. Mas Cristo frustra seus intentos ao responde-lhe com um conhecimento intrínseco da Lei (Lc 2;47), um conceito pétreo, fundante. O amor (γαπν) a Deus é o princípio da obediência (Jo 14;23). Entretanto, para Cristo, amar (γαπν) ao próximo é tão diretamente entrelaçado com amar (γαπν) a Deus que ele vê a necessidade de responder ao questionamento com afirmações sobre um segundo mandamento semelhante ao primeiro.
O entendimento dessa realidade está espalhado nas cartas paulinas, bem como nas cartas gerais. João coloca essa relação de amar ao próximo como sinal do amor a Deus (I Jo 2;10, 3;10, 4;7,8,20,21), Tiago afirma que uma fé em Deus sem obras é morta, para ele amar a Deus implicava diretamente em amar aos semelhantes. Paulo passa a mostrar o mais excelente dos dons, o amor (γπην), e é evidente que esse amor, poeticamente apresentado, não é para com Deus. O amor ali apresentado é como deve ser a expressão do nosso amor (γπην) para com o próximo.
O amor com que Deus nos amou é o padrão para amarmos uns aos outros. O apóstolo ainda acrescenta que todos os atos feitos sem amor (γπην) são inválidos. Ele não afirma que os atos foram ruins, ou que deveriam ser evitados. Ele afirma que essa liturgia ou religiosidade destituída de amor (γπην) não tem valor nenhum por que está destituída da essência de Deus. Se os atos mais profundos de devoção não contemplarem, em amor, ao próximo, serão como um barulho, um som destituído de sentido e de beleza, que rapidamente torna-se insuportável (Ap 3;16).

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[1] Claro que em algum nível há uma precisão no relato, a questão é que o propósito do texto de Gênesis não reside no esclarecimento da mente humana e sim na revelação do Senhor.
[2] Na aterrorizante experiência do encontro de Deus com Jó, a multidão de inquietantes razões que ele tinha, foram silenciada e transformada em uma assombrosa e calma confissão de fé, “ainda que ele me mate, nEle confiarei”; quando Jesus acalma a tempestade os discípulos percebem admirados quem realmente era Jesus; a acusação apresentada por Deus contra o povo escolhido, registrada no primeiro capítulo de Isaías, trata exatamente disto: o boi conhece o seu dono e o jumento sabe quem o alimenta, mas o povo dele não tem entendimento.
[3] A diferente reside na fé demonstrada pela obediência de Noé ao construir a arca. Esse episódio é tipológico da obediência de Cristo o novo Adão, mas a potência da salvação propiciada pela obediência de Noé não é perfeita em comparação ao sacrifício de Jesus.
[4] As restrições são a espiritualidade e veracidade da adoração prestada a Deus. Independente de qual for a interpretação dos termos, fica claro que para Jesus só esse grupo em particular, que adora em espírito e verdade, são adoradores de Deus (ver Jo 4;24).
[5] Uma referência ao primeiro capítulo. 
[6] Uma referência ao artigo A Etimologia Bíblica do Termo Adoração

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Teologia do Evangelho Íntegro – A Mensagem que dEle temos ouvido

Simples assim:  Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta (Tiago 2:26). Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor (Efésios 5:15). E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente. Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional (Rom 12:2a,1). Entre vocês não deve haver nem sequer menção de imoralidade sexual nem de qualquer espécie de impureza nem de cobiça; pois estas coisas não são próprias para os santos. Não haja obscenidade nem conversas tolas nem gracejos imorais, que são inconvenientes, mas, ao invés disso, ação de graças. Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus. Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave.(Efésios 5:3 a 5, 1, 2). Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte, a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito (Romanos 8:2, 4). Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam. (Gálatas 5:1, 19 a 21) Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz (Romanos 8:6) para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Romanos 12, 2b). {É assim que} se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus, vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, (Tiago 2;23, 22). Portanto, santificai-vos e sede santos, pois {Santo é} o SENHOR, vosso Deus (Levíticos 20:7). Destes dois mandamentos, {fé e obras}*, dependem toda a Lei e os Profetas (Mateus 22:40).
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*Os dois mandamentos citados por Jesus são: o Amor superior e incondicional a Deus e o amor ao próximo como a si mesmo, exemplos perfeitos desse dupla inseparável, Fé e Obras (sugiro a leitura de 1 João 3; 16 a 18).
Obs.: Os textos foram citados concatenando ideias que estão presente no contexto de cada citação. Vale – e em nada mudará a afirmação do post – a leitura completa dessas referências dentro do contexto onde originalmente estão.

sábado, 24 de maio de 2014

A Igreja II: A missão!

Enfim a continuação de A Igreja.

Sete perguntas sobre “Missões”[1]:[i]

Introdução:
Em 1996, eu estava do outro lado. Eu tinha apenas 16 anos e era o ouvinte, lá em Brasília, num acampamento para jovens, em que o preletor, rev. João Batista (então reitor do SETECEB - Seminário Teológico Cristão Evangélico do Brasil), falou claramente sobre o engajamento no projeto de Deus para o mundo, um chamado ao serviço. Naquela ocasião eu entendi que meu lugar era no sagrado ministério. Hoje, quase 20 anos depois estou aqui em Ariquemes-RO, e pela primeira vez vou palestrar aos jovens sobre Missões. Como eu estou me formando em administração gostaria de tratar desse tema, a partir da aplicação da ferramenta de gestão de projetos 5W2H (What, why, who, when, where, how, how much? – O que, por que, quem, quando, onde, como e quanto?). Utilizando esse modelo, responderei estas sete perguntas sobre Missões, no fim, espero que você esteja mais consciente desse assunto e disposto a participar desse projeto. 

Primeira: o que é “Missões”?
De acordo com o dicionário “Missão”, do latim missio(onis), envio: Ato de enviar ou de ser enviado; encargo, incumbência, desempenho de um dever; ou seja “Missões” é realizar uma tarefa. É assim no caso das Missões Cristãs. É realizar uma tarefa, um trabalho. Entretanto, é aí que o conceito em si apresenta um problema: o termo não aparece no Texto Sagrado[2]. O Conselho Mundial de Igrejas, reunido em 1967, definiu “Missões” como “promover a proclamação do evangelho de Jesus para o mundo todo, a fim de que todos os homens creiam nele e sejam salvos”. Outro conceito circunstante é que a Missão da Igreja é um derivativo da Mission Dei, onde Deus, o Pai, enviou o Seu Filho, (Jo 1;1-5 e 1;14) e ambos enviaram o Espírito Santo para a Igreja (Jo 14;16). Assim também a Igreja é enviada pelo Deus Trino para cumprir – ou repetir; guardada as devidas proporções[3] – o intendo divino de salvar a humanidade.
No senso comum cristão, “Missões” são iniciativas religiosas que difundem os princípios do Cristianismo entre povos não-cristãos; têm a ver com a  organização dos trabalhos que compõem e auxiliam o evangelismo; é a imitação do ministério de Jesus Cristo, ou seja, literalmente falar do Reino dos Céus; cumprir a Grande Comissão, o “ide” de Mt 28;19, pregar o Evangelho pelo mundo.

Segunda: por que fazer “Missões”?
Em Mt 28;18, um verso antes do famoso “Ide!”, Jesus afirma ter toda autoridade possível, tanto celestial como terrena; o poder é dele, ele é o Senhor. E é só depois de dizer isso que vem o sonoro “ide”.
Há, neste texto, muito mais do que uma simples sequência de informações. Há um “portanto” no meio dos termos “ide” e “fazei”, ligando-os de modo inquestionável a autoridade declarada anteriormente. Em outras palavras, devemos fazer “Missões” porque Jesus, a Autoridade, mandou. É na obediência a Cristo, que a Igreja avança! Não tem tanto a ver com amar almas perdidas; ou com encher igrejas! Antes, é uma questão de submissão ao Senhor Jesus. Mas lembre-se: Aquele que tem os seus mandamentos e os guarda, esse é o que o ama; e aquele que o ama será amado pelo Pai, e ele, Jesus, também o amará e se manifestará a ele (Jo 14;21),  ou seja, fazer "Missões" é uma questão de amor a Deus!

Terceira: Quem faz “Missões”?
Amar a Deus, é especialmente importante para responder esta pergunta, também! Você ama a Jesus Cristo? Ele é o seu Senhor? Você o obedece? “Missões” são para todos os que amam a Jesus, reconhecendo o seu senhorio e por isso buscam obedecer aos seus mandamentos. Mas há um outro detalhe: no verso 20 desse mesmo capítulo do Evangelho segundo Mateus, Jesus disse que estaria conosco nessa jornada. Assim Jesus é tanto o motivador (quem manda) das Missões, quanto o realizador desta tarefa em nós. Em outras palavras, faz “Missões” quem tem intimidade com Deus. Jesus em nós, isso é, o Espírito Santo, nos fará ir e fazer discípulos, naturalmente. Se é que, de fato, o Espírito Santo habita em nós.

Quarta: quando fazer “Missões”?
Você percebeu que Jesus disse que estaria conosco até a consumação dos séculos? Em Jo 4;35 ele falou da iminente hora da colheita! Em Hebreus, o autor alerta para a conversão no tempo presente e para o arrependimento proposto agora. E não se esqueça, pesa sobre cada um de nós o alerta: como escaparemos nós se negligenciarmos tão grande salvação? Então, podemos concluir que o tempo para "Missões" é o "agora" e até chegar o fim, a consumação dos séculos.

Quinta, onde fazer “Missões”?
Em At 1;8 Jesus também comissionando os discípulos diz que eles receberiam poder do Espírito Santo para serem testemunhas dele, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra. Fazer "Missões" aqui no Brasil é estar nos confins da terra[4], e se nós estamos nos confins da terra, ficar por aqui, é cumprir o "Ide", e pronto!? Não! O texto não diz: primeiro deve-se fazer Missões em Jerusalém e depois na Judéia e então nos outros lugares. Jesus ordena que "Missões" sejam feitas lá no oriente médio tanto quanto em outros lugares da terra. Onde você está, ou noutro lugar que você possa (ou deva) ir, é o lugar onde você precisa anunciar o Evangelho, fazer “Missões”. Sem esquecer, claro, que Missões devem ser feitas em diversos lugares, ao mesmo tempo. Assim, ore e contribua, também, sempre!

Sexta: como fazer “Missões”?
Existe uma máxima bastante significativa sobre como qualquer pessoa pode fazer "Missões". Diz assim: você pode fazer "Missões" indo, orando ou contribuindo, e é bem verdade. Entretanto, não há a necessidade de ir para fora do Brasil para fazer missões; nem mesmo de deixar seu emprego, ou largar a faculdade. "Missões" são também transculturais, mas não são só transculturais! Assuma sua responsabilidade como um missionário, assuma sua missão. Eu desafio você a orar por "Missões", mas não simplesmente pelos missionários na Janela 10/40, ore para que Deus te direcione e te dê oportunidades de ser um missionário! Contribuir é a forma mais fácil de fazer “Missões”, o simples fato de você contribuir com o dízimo e ofertas na igreja em que você congrega, já faz de você um contribuinte de "Missões". Mas, além disso, o texto de Mt 28;18 a 20 esclarece que as "Missões" são fazer discípulos, ensinando-os a obedecer tudo o que Jesus ensinou – ele ensinou, literalmente, toda a Bíblia. Ser um discipulador ou dar aula na EBD da sua igreja, mesmo falar sobre assuntos bíblicos em rodas de amigos ou pregar formalmente em um culto, é, em algum sentido, fazer “Missões”. Até a disciplina na Igreja é ser "missional", afinal, Deus ama e corrige seus filhos.
Junto à isto, e em especial, está a ordem do Batismo, presente, inexoravelmente, na Grande Comissão, deixando claro que “Missões” não pode ser um trabalho destacado  de uma igreja local. Como cumprir essa parte da missão se não há uma comunidade local para inserir esses novos discípulos? Se não houver um lugar onde eles possam continuar a crescer e exercitar a sua fé, fazendo outros discípulos também crescerem, como cumprirão, cada um, a sua própria missão? Portanto, abrir  igrejas, onde ainda não existem, é fazer “Missões”, sem dúvida.

Sétima: qual o custo de “Missões”?
Em Hb 11;35 a 40, diz: ...alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição; outros, por sua vez, passaram pela prova de escárnios e açoites, sim, até de algemas e prisões. Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos ao fio da espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra. Jesus disse também que aquele que não tomar a sua cruz e não segui-lo ou não abandonar (se necessário) seus familiares[5] e ou não gerar inimizades[6], não é digno de ser discípulo dele, assim não podendo (e não querendo) fazer “Missões”.
Sabemos que o mundo perseguirá aqueles que andam com Cristo e os odiará do mesmo modo que odiaram a Jesus! Afinal, os discípulos do Mestre são como ovelhas enviadas para o meio de lobos! Duro esse discurso?! Mas o oposto, não fazer “Missões”, é pior! Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á (Mt 16;25), não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo (Mt 10;28).

Para terminar:
"Missões" nasce no coração de Deus, literalmente, significa divulgar o Evangelho; compartilhar a Fé, ensinando sobre Deus, a Bíblia e a salvação somente através de Cristo. É falar da Cruz de Jesus, contar suas histórias e divulgar seus ensinos. Para tanto temos que abrir mais igrejas por todo o mundo e incluir nelas novos convertidos. E com oração e súplicas, por amor a Cristo, investir nosso tempo, trabalho e dinheiro nesse projeto que descende do alto.
 A Igreja sempre entendeu a sua missão, “o ide e fazei” de Mt 28;19. Foram esses os Atos dos Apóstolos, toda a história eclesiástica demonstra isso, e, até muito recentemente, foi exatamente assim que a Igreja agiu, o que é confirmado até pelas missões feitas, inclusive aqui no Brasil[7], poucos anos depois da Reforma Protestante do séc. XVI.



[1] O termo missão está no plural, missões, mas é tratado como a ação fazer missões, assim, no texto assumirei o singular, para tanto usarei as aspas.
[2] As 4 ocorrências do termo ‘missão’ na Bíblia ARA, a Jo 2;14 e 20, At 12;25, 1Tm 2;15, não estão relacionados a ideia do artigo.
[3] Cristo com o único sacrifício expiatório necessário e a Igreja como agente proclamador dessa verdade.
[4] Atos 1; 8 foi dito no oriente médio, Jerusalém, daí quanto mais distante de lá, mais no fim do mundo estamos.
[5] A ideia é abdicar da estabilidade, conforto e segurança da casa dos pais, e não abandonar ou se isentar de responsabilidades.
[6] Por causa de Cristo e de sua Palavra.
[7] Em 7 de Março de 1557, chegam ao Brasil, na então colônia francesa, na Baía de Guanabara, os primeiros missionários calvinistas (huguenotes-franceses da Igreja Reformada Francesa) enviados por João Calvino. O projeto fracassou e parte desses protestantes foi morta pelos colonos portugueses. A partir 1630, a Igreja Reformada Holandesa fundou cerca 20 congregações no Nordeste, mais de 50 pastores além de pregadores auxiliares e outros oficiais trabalharam nesse projeto que batizou índios e pretendia traduzir a Bíblia para o tupi e para o português, além de ordenar pastores indígenas e lusitanos. 20 anos depois a coroa portuguesa organizou um projeto militar de expulsão dos holandeses e retomou o nordeste brasileiro.



[i] Baseado no esboço e nas transcrições da palestra ministrada na Primeira Igreja Presbiteriana de Ariquemes – RO, dia 18 de maio de 2014.

Agradeço a Luciana Braga, minha irmã que sempre me ajuda com as (inúmeras) correções dos textos que publico no blog, ou nos trabalhos escolares desde o jardim de infância até os das faculdades. Ao Neto (Francisco) que deu grande contribuição na formatação (curta, direta e sem perdas) desse artigo. Ao David Portela que me enviou material-fonte para a composição do esboço da palestra. E para todos que de um modo ou outro colaboraram me indicando livros, artigos e etc. para a preparação e finalização do estudo. Finalmente a turma da UMP que gentilmente me convidou para assumir o púlpito no intercâmbio, entre as UMPs do PPVH e do PCRO, me dando assim um empurrão para tratar dessa matéria tão cara para mim.