quinta-feira, 23 de junho de 2016

7 Vozes sobre o 7º dia


Esse artigo tratar objetivamente do 4º Mandamento (Êxodo 20;8) na celebração cristã em sua óbvia transição do 7º para o 1º dia da semana. A ideia é afirmar o valor piedoso do culto no domingo. Não haverá uma defesa do modo especifico de se observar esse mandamento para além desse quesito; isso ficará para outro momento, afinal esse tema é muito bem estruturado nas diversas tradições cristãs. Segue então 7 apontamentos, escalonados – penso eu – em ordem crescente em importância ou peso argumentativo, sobre a mudança do 7º dia.

1- A voz do calendário:
Em 320 d.C. na reforma do calendário romano, oficializam o primeiro dia da semana como “Dia do Senhor” especificamente por ser o dia conhecido e aceito costumeiramente como sendo próprio da celebração cristã. Conjuntamente, se mantém o sabbath (sábado) em referência ao antigo compromisso judeu (lembre-se que haviam muitos judeus em todo o mundo romano). Eles não são juntados ou ignorados, indicando que eram dias para diferentes religiões, realidade já clara ainda nos primeiros séculos da era comum. E mais, o concílio de Niceia (ano de 325 d.c), faz alusão ao Dia do Senhor, primeiro dia da semana, em uma de suas decisões. O Dominica Dies (literalmente Dia do Senhor), mais para frente “domingo” – no nosso bom e velho português – passa a reger o início das semanas. Ou seja, a influência cristã na sociedade romana, religião que inicialmente foi mortalmente perseguida, depois tolerada, aceita e oficializada é que força a mudança do calendário e não o contrário, como afirmam alguns.

2- A voz da Tradição:
Em meados do século II, Justino, o Mártir, identifica “o viver cristão com o sábado perpétuo que consiste de abster-se do pecado, e não do trabalho” – uma clara oposição ao costume judeu. lrineu encarava o sábado como um símbolo do futuro reino de Deus, no qual aqueles que serviram a Deus “num estado de descanso, participariam da mesa de Deus”, espiritualizando o entendimento do mandamento. Tertuliano declarou: “Nós não temos nada a ver com as festividades judaicas”, obviamente incluindo o sabbath. Orígenes disse do cristão perfeito: “Todos os seus dias são do Senhor e ele está sempre observando o dia do Senhor”, contra o exclusivismo sabatista. Mas no Didaquê, o mais antigo manual de preparação de batismo e discipulado da Igreja Cristã (80-90 d.C.), diz no Capítulo XIV: Reuni-vos no dia do Senhor (o primeiro dia da semana) para a Fração do Pão e agradecei (celebrai a Eucaristia), depois de haverdes confessado vossos pecados, para que vosso sacrifício seja puro.

3- A voz da História:
Parece certo dizer que foi só no início do século XVII que essa ideia ganha algum interesse. Na Inglaterra, em 1617, um grupo dissidente de batistas organizou a primeira Igreja Batista do Sétimo Dia. Literalmente se separando da cristandade da época. Embora o contexto histórico conturbado fundamente, também, essa separação, simplesmente eram o único grupo a insistir com isso. E segundo eles mesmos, foi por isso que eles se separam. O distintivo era observar o sábado (sétimo dia) como dia de descanso e adoração, “uma exigência imprescindível do cristianismo bíblico”. Foi-se mais de duzentos anos até que por influência de Raquel Oaks, viúva, membro da igreja Batista do Sétimo Dia, o pastor Frederick Wheeler passa a observar o sétimo dia, iniciando assim o que mais tarde se torna a Igreja Adventista do Sétimo Dia, os mais “famosos” cristãos sabatistas. Isso não é desimportante, é como afirmar que levou 1500 anos para o Espírito Santo convencer a igreja a ser pura!

4- A voz da Reforma:
Calvino em sua mais notável obra, diz que o apóstolo Paulo ensinava que os cristãos não devem ser julgados por sua observância (a guarda do sábado ou de outro dia especial) pois era apenas sombra da realidade futura. E, mais, afirma também que o autor da Carta aos Romanos acusa de ser “supersticioso quem distingue um dia de outro dia”. E completa, “visto que era proveitoso afastar a superstição, foi abolido o dia religioso dos judeus (sábado ou sétimo dia), e como era necessário manter na Igreja o decoro, a ordem e a paz, outro dia foi destinado para esse fim”. Prosseguindo, para concluir seus argumentos, diz: “Não foi aleatoriamente que... antigos colocaram o dia do domingo no lugar do sábado. Dado que a verdadeira quietude que o antigo sábado representava teve na ressurreição do Senhor um fim e complemento, pelo mesmo dia, que pôs fim à sombra, os cristãos são admoestados a não aderir a uma cerimônia de sombras”.

5- A voz da Pureza:
Já os puritanos – parte da sociedade inglesa do sec. XVII e XVIII – sinceros e profundos conhecedores da fé cristã, bíblicos, interdenominacional, anti-romanistas, indiscutivelmente fieis e abnegados, dispostos até morrer pelo que acreditavam ser a correta interpretação da Palavra de Deus, são unanimes em compreender a obediência ao 4º mandamento (lembrar-te do dia de sabbath, para o santificar) como a observação piedosa do primeiro dia da semana (domingo). É fácil provar a disposição deles em romper com tudo que era meramente tradicional ou apenas romanismos, e caminhar na certante das Escrituras Sagradas. Eles avançaram sobre temas como o governo eclesiástico, as relações da Igreja e o Estado, negaram o cerimonialismo, o poder papal, partilhavam um ativismo sócio-político tocante e eficaz, mas simplesmente insistiram – e até de forma radical; vejam os padrões de Westminster – "o Dia do Senhor é o primeiro dia da semana"! Notem que esses eram contemporâneos dos primeiros sabatistas, mas há dúvidas da posição deles – o que diz muito! 

6- A voz da Teologia:
Cristo ao se afirmar o Senhor do sabbath, coloca esse mandamento na perspectiva certa: o descanso foi feito para o homem e não o contrário (Marcos 2;27 e 28), vence a superstição associada ao dia – as 24 horas semanais tem algum valor em si mesmas –  sacramentando, de modo inquestionável, o valor piedoso – obediência e submissão, afinal até Deus descansou! – já do cuidado do corpo garantido pela simples observação do descanso físico semanal. Em outro ponto, João 4;23, num dia comum, o Mestre afirma que a hora já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, pois estava trazendo essa hora cativa a si mesmo (João 15;1-11). Somando-se às leis do Antigo Testamento que regem a observância do sábado, devem-se compreender o princípio do “novo sábado”, relembrando o passado bendito, no Éden e seu fruir livre, prazer de Deus – e Árvore da vida quase sempre esquecida! –  contrastando com parte da pena imposta a humanidade (o sustento através do penoso trabalho), quanto para o dadivoso futuro, numa expectativa da vitória definitiva de Jesus Cristo, da qual sua ressurreição, que aconteceu no primeiro dia da semana, é um prenúncio, o Último Dia, o Dia do Senhor que é verdadeiramente o Descanso prometido por Deus (Hebreus 4;1,3, 7-11), e em especial como apontamento já no presente, do Descanso na visão cristã, antes de tudo, A Paz com Deus, um cumprimento espiritual da alegoria no Salmo 23. Em outras palavras, o leve fardo e o suave jugo do Senhor (Mateus 11;30). Ou seja, por causa do Cristo glorificado, que santificou todos os tempos, rasgando o véu da separação, dando livre acesso ao trono da Graça (Efésios 2; 11 a 18), o domingo não é como o sábado dos judeus (atrasado 24 horas) – pois se for, incorre-se no mesmo erro dos judaizantes – mas um anúncio de vitória completa de Cristo, passado, presente, futuro; o próprio dia é em si Pregação!

7- A Voz da Palavra:
Fica claro em todo o livro de Atos que tanto Paulo, quanto os outros apóstolos iam as sinagogas, aos sábados (sétimo dia), pois era o dia comum de funcionamento, para ali pregar o Evangelho aos judeus! Mas em Colossenses 2;16 e 17, Paulo, o apóstolo dos gentios, afirma não ser necessário fixar-se em datas e dias dos judeus e nem em outro costume da religião judaica. Em Gálatas 4;10 e 11 ele lamenta, questionando o resultado do seu trabalho, exatamente porque, entre outras coisas, os crentes daquela cidade estavam querendo guardar “dias, e meses, e tempos, e anos”. Interessantemente no concílio de Jerusalém (Atos 15), os apóstolos reunidos não impuseram aos não-judeus, nenhuma outra coisa além de que se guardassem da idolatria, da imoralidade sexual, da carne dos animais sufocados (talvez torturados) e do sangue (provavelmente uma alusão à rituais pagãos de abatimento animal). Eles não ratificaram a observância do sétimo dia, preceito importantíssimo no judaísmo. Entretanto é inegável o fato: a Ceia do Senhor era realizada no primeiro dia da semana (domingo)! Numa tradução mais literal de At 20:7, “no primeiro dos sete dias da semana, tendo os discípulos sido ajuntados para partir o pão, Paulo, estando para viajar no dia seguinte, de forma completa argumentava com eles; e prolongava a pregação até à meia-noite...”. Segundo uma nota de tradução, os termos “των σαββατων”, que foram traduzidas na maioria das versões – inclusive na mais usada pelos sabatistas – como relativo semana, estão no caso genitivo e no gênero plural, forçando a compreensão num sentido de “primeiro dia da semana” (domingo), foi esse entendido usado para outras oito passagens: Mateus 28:1; Marcos 16:2,9; Lucas 18:12; 24:1; João 20:1,19; ICoríntios 16:2.  – Pense bem, o reanúncio do Sacrifício materializado, um sacramento, ordenança de Cristo, meio de Graça, não só ao coração (doutrina) mas também para os cinco sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar) era naturalmente feito no domingo. Isso é muito significativo!

A Voz da Razão:
O cristão deve fugir de qualquer superstição quanto o tema. O 4º mandamento se mantém em seus princípios, assim como todas as leis cerimoniais do Velho Testamento. Embora se possa argumentar de modos diversos como deve ser essa observância específica, é sábio insistir que o dia da semana foi mudado. Coisa que não se prova apenas por um mero verso, mas por toda a sabedoria divina presente em toda a Escritura Sagrada.

A voz de outros:

Para saber mais sobre a tradição (patrística), sugiro:
http://www.paulus.com.br/loja/search.php?q=patristica&utm_source=portal&utm_medium=menu_search&utm_campaign=portal_palavra

Sobre o pensamento de Calvino, sugiro:
http://loja.clire.org/produto/a-instituicao-da-religiao-crista-tomo-1-e-2/
http://www.cristaoreformado.com/2016/06/o-que-calvino-realmente-disse-sobre-o.html

Para saber mais sobre os puritanos, sugiro:
http://www.livrariacultura.com.br/p/paixao-pela-pureza-42891540
http://www.editorafiel.com.br/produto/5504435/Santos-no-Mundo

Sobre o 4º mandamento sugiro:
http://www.monergismo.com/textos/dez_mandamentos/quarto_solano.htm
http://editoramonergismo.com.br/?product=os-dez-mandamentos

Observações:

A citações dos pais da igreja foram retiradas de livros digitais usados na minha monografia para ordenação;

O Didaquê pode ser consultado aqui: http://www.ofielcatolico.com.br/2001/05/o-didaque-instrucao-dos-apostolos.html

A citações de Calvino, são do capítulo VIII, parágrafos 32, 33, 34, livro 1, tomo 2, da UMESP.


Originalmente postado em: http://acruzonline.blogspot.com.br/2016/06/7-vozes-sobre-o-7-dia.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário

É sua vez de dizer alguma coisa! Será bom te ouvir (ou ler), mas lembre-se da boa educação.