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sábado, 23 de agosto de 2014

A CONCEITUAÇÃO TEOLOGICA DA ADORAÇÃO BÍBLICA

Deus estabelece, do nada, tudo o que há (Gn 1;1). Esse Deus, supremo criador, passa a por ordem no caos (Gn 1, Sl 74) em proporções universais. Os relatos da Criação nos dois primeiros capítulos de Gênesis mostram uma organização, um controle diretivo e não somente potencial.  Deus levou seis dias para criar o mundo. Toda a Criação, todas as coisas que existem, existiram ou existirão, foram planejadas e projetadas por Deus ali naquele instante[1] chamado eternidade. Todas as implicações, conseqüências, desdobramentos, foram antevistos, perscrutados, analisados, compreendido e solucionados.  Deus, antes do start do κσμου, conheceu, predestinou, providenciou e uniu em Si mesmo, todas as coisas, acontecimentos e possibilidades, começo, meio e fim (cap. III, A Bíblia e o Futuro, Antony Hoekma, Cap. I, cânones de Dort, I Co 2;7). Há um método, uma ordem, um motivo, há um propósito
.
Tudo que foi escrito deve ser entendido na perspectiva humana, como um relato, a intenção é de contar a história para alguém, e com isso formar algumas ideias. Gênesis é o início da revelação de Deus e não o início do relatório científico[1] da criação. Ao ouvir por que as coisas foram criadas, e por quem (יְהֹוָה  Yehovah - IHWH - Jeová, Javé, Iavé ou Yahweh), é presumível, não só a admiração, mas que um forte senso[2] de cuidado seja instalado no coração do homem.


É exatamente por isso que ao questionar a afirmação de Deus ter criado tudo, vemos expressões como “A Morte de Deus” ou “O Homem que matou Deus” – afinal, sem um criador, somos órfãos, filhos de chocadeira, “não há ninguém lá em cima que olhe por nós”.
Deus ao colocar no cânon, o Início (Gênesis), quer com isso se revelar, não só como o Deus Único, criador de tudo e todos, mas também, apresentar-se como o poderoso Deus que escolhe, institui e preserva o povo de Israel. Gênesis tem o propósito de gerar naqueles que saíram da terra de escravidão uma identidade nacional, transformando um bando de parentes em uma nação.
Uma nação só existe com o estabelecimento de um poder – a Constituição, por exemplo, é o poder máximo do estado de direito – nos tempos de Moises esse poder poderia ser um deus, um patriarca, um poder militar, etc. algo que servisse de elo. Deus, através de Moises, progressivamente estabelece esse Estado, reivindicando para si a autoridade magma. Deus é em última instância o poder máximo da nação Israel, por isso é nEle o valor de Israel como um povo (Is 41;8,14), o valor da nação reside em Deus, o criador.
Embora Deus, o criador, é quem prometa a Abraão fazer de sua descendência uma grande nação, e que o Pentateuco conte a saga dele e de seus descendentes. Os 5 livros não foram escritos com o propósito final de serem para o povo somente relatos históricos ou documentos do poder público (códigos civis, penal, religioso, etc.). Os livros registram o estabelecimento de um pacto, entre o Deus e o homem, IHWH e Adão. Por isso no V.T. não aparece a ideia de Deus-Pai e sim de Deus-Criador. A relação é contratual, tem-se a descrição das cláusulas do contrato (obediência, construção da arca, circuncisão, etc.) e suas observações na vida. Aparentemente cumprindo todas as legalidades, alguém poderia afirmar ser adorador de IHWH (Jo 8;31 a 47), com essa compreensão, que é ainda limitada, veríamos os termos adoração, culto, liturgia, serviço religioso, reverência e religião exatamente como os fariseus, somente como normas, leis, regras, circunstâncias, festas e datas (Is 29;13). Nessa visão estabelecer linhas diretas e negar qualquer desvio fica realmente muito fácil.

No pacto:

É imposto, então, clarificar no V.T. e no N.T., na antiga aliança e na nova, a adoração, e na acepção pactual elaborar uma compreensão ainda mais completa da Adoração Verdadeira, para então, de posse dessa conceituação bíblica, progredir na proposta temática.
Dentro das doutrinas reformadas a relação entre Criador e criatura é entendida como um contrato, um pacto. Com Adão no paraíso foi assim. Deus criou o homem segundo a sua imagem e semelhança. Deus, o Senhor, colocou Adão, o servo, no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo e o orientou sobre como deveria ser o seu procedimento ali (Gn 2, 4 a 25) expondo as consequências de violar essas condições.
A cláusula desse contrato que trata das punições (consequências) do descumprimento de algum de suas partes (v.17), é exatamente o que obriga o ser humano a uma vida distante de Deus, longe do paraíso, expulso da presença divina, ou seja, o Pacto vigora! Com Noé (tipo de Cristo), como agente do pacto, foi diferente[3], a sua obediência o tornou uma benção para toda a criação. Com Abraão (outro tipo de Cristo) também, ele creu e isso lhe foi imputado como justiça, e nele todas as nações da Terra seriam abençoadas, a sequência dos patriarcas confirma essa continuidade do Pacto com Adão (o homem).
Êxodo, então, passa a contar a libertação da escravidão imposta pelos egípcios aos descendentes de Abraão – que é descendente de Sen, filho de Noé, descendente de Seth, o filho de Adão, o homem. O povo de Israel, por sua vez, é introduzido como agente desse pacto, reafirmado por Deus, que passa sistematicamente a criar um Estado que vivesse sob a égide dessa revelação. Todo o V.T. é baseado no cumprimento das cláusulas que foram anunciadas por Deus no monte Sinai.
Ao considerar as revelações do N.T. (Novo Testamento) sobre o Pacto no V.T. temos uma visão ainda mais clara de sua continuidade proposital. Daí o sacrifício de Cristo, não só é a continuação pactual – como foram Adão, Noé, Abrão, Moises, Davi, Salomão, Daniel, Esdras e etc. – como de fato é o cumprimento pleno desse Pacto. É o sacrifício de Jesus que validou a adoração sob a Lei (sacrifícios e correlatos) e o que valida a adoração da Igreja (adoração atual). Nisso exclui-se a possibilidade de duas realidades ou dispensações: Lei versus Graça. Há uma única verdade: por meio de Cristo, todos, quer judeus, gregos, troianos ou goianos, são unidos a Deus, em Cristo, e somente em Cristo pode-se adorar ao SENHOR (cap. XXI, CFW).
Adoração a Deus é um relacionamento proposto, providenciado, mantido e possibilitado por Deus, e em última análise, consumado por Cristo.  O sacrifício de Jesus é o que validou a adoração sob a Lei (sacrifícios e correlatos) é o que valida a adoração da Igreja (adoração atual). Assim, exclui-se a possibilidade de duas realidades ou dispensações. Há uma única verdade: por meio de Cristo, todos, quer judeus, gregos, troianos ou goianos, são unidos a Deus, em Cristo, e somente em Cristo pode-se adorar ao SENHOR (cap. XXI, CFW).
 Analisando a resposta de Jesus ao questionamento sobre a validade do culto tradicional dos samaritanos (Jo 4;21), tem-se uma ampla visão de como para ele a adoração a Deus era central em seu ministério. A mulher, que por ‘acaso’ se encontra com Jesus no poço de Jacó, quer saber aonde era o local certo para adorar (prestar culto) a Deus, no monte Gerezim, o local perto de Sicar onde durante séculos os samaritanos adoravam e ofereciam seus sacrifí­cios ou no Templo de Jerusalém.
Jesus desconsidera essas duas possibilidades declarando que somente “em espírito e verdade” os verda­deiros adoradores adorarão (se submeterão) o Pai (Jo 4;23). É interessante perceber a introdução dessas restrições[4] na adoração. Cristo afirma que somente os verdadeiros adoradores adoram realmente ao Pai, pois só eles O adoram em espírito e em verdade. É claro, que nesse contexto, Cristo fala da inauguração do Reino da Graça, o tempo chegado aonde esse tipo de adoração acontecerá, isso nos faz entender que a adoração verdadeira só é possível através de Cristo (Cap.XVI, CFW).
É razoável pensar que se existe a adoração em espírito e em verdade, existe, também, uma adoração carnal e falsa. Cristo ao qualificar como espiritual e verdadeira a atividade dos adoradores procurados por Deus (Jo 4;23) faz clara distinção destes com os dois outros grupos em discussão.
Analisando esses dois grupos, judeus e samaritanos, percebem-se alguns princípios que se seguidos não faz automaticamente de alguém um adorador verdadeiro: historicidade. Ambos, judeus e samaritanos, faziam o culto assim há tempos, era, não só, costume, mas também cultura – claro que com pesos diferentes para cada grupo; prescrição. Para os judeus, o sacrifício no Templo era a clara e inquestionável observação a Lei de Deus, embora, tanto essa “observação” como essa “lei de Deus” tenha sido questionada pelo próprio Deus; localidade. Havia razões pelas quais se adorava a Deus nesses locais: O monte Gerazim foi palco de acontecimentos importantes da revelação Divina, e o Templo, embora tenha sido até essa ocasião, refeito duas vezes, segue de alguma forma – “de alguma forma” ideia melhor explicada mais a frente – a prescrição para ser o Tabernáculo ou morada de Deus entre os homens; sinceridade. Seria imprudência nossa pensar que os samaritanos iam ao monte adorar a outro deus, ou que o faziam sem algum grau de devoção, da mesma maneira para com os judeus no Templo, embora houvesse ali às portas do Templo, charlatães, especuladores e ladrões a grande maioria realmente tinha um sentimento de religiosidade.
E importante, ainda, recordar que Jesus não afirma que os samaritanos não adoravam a Deus, ao contrário, eles O adoravam, só não conheciam! O rev. Russel Shedd (1987) afirma que “Mais do que inútil é o culto que desconhece Aquele a quem de­vemos submissão e lealdade. Por isso, o grau de beleza de um culto, o número de adeptos, ou a sua antiguidade, não tem importância se o adorador não estiver em contato vital como Deus único”. Por fim a afirmação de Jesus “a salvação vem dos ju­deus”, provavelmente fazendo referência as numerosas profecias do A.T. ao próprio respeito, trata do fato de Deus revelar a salvação primeiramente a Israel (Rm 9;4) e não de qualificar adoração dos Judeus como melhor ou mais aceita do que a dos samaritanos.
A adoração aceitável não está baseada em nenhuma observância legalista. Homens como Abel, Enoque, Noé, Abraão, Moisés obtiveram bom testemunho pela fé (Hb 11). Eles adoraram segundo os padrões de Deus, isto é, de acordo com os mandamentos de Deus, esperaram contra a esperança e contemplaram de longe o objeto da sua fé, pois eles entenderam que a promessa – remissão em Cristo – era de uma pátria superior (v.16). Para eles não tinham sido entregues os 10 mandamentos e nem as leis cerimoniais, eles não observavam datas e épocas do ano e não havia um edifício consagrado ao Senhor. Eles obtiveram bom testemunho pela obediência a uma lei maior, uma lei que deve ser, como foi para este, o parâmetro para adoração da Igreja Cristã.

Cláusula primeira:

Jesus esclarece qual era essa lei maior. Quando perguntado sobre qual era o maior mandamento, ele, afirma que a grande lei que os homens devem seguir é amar a Deus de todo o coração. Ele não citou um dos 10 mandamentos, ele não considerou o decálogo como fonte do maior mandamento. Cristo sita uma passagem de Deuteronômio 6;5. Para Jesus, a ordem maior que Deus impõe ao homem é amá-lo e por isso servi-lo de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento.
Esse amor a Deus deve ser entendido como a acepção verdadeira da adoração exigida e – claro – possibilitada por Deus (Ex 20;6). Duas razões podem ser levantadas para sustentar essa afirmação: Cristo afirma que essa é a Lei de Deus, o mandamento máximo divino, a razão pela qual os seres humanos existem, o propósito da criação. Amar a Deus é o objetivo que o Criador estabeleceu para o ser humano, é um decreto imutável do Senhor (item V, cap. III CFW, livro I, cap. I, IRC). A segunda razão é teológica. A expressão do ‘caput’ da lei prescrita é similar ao entendimento do encadeamento etimológico[5] abstraído no N.T. e na LXX.
O termo traduzido por amar é γαπσεις que foi utilizado na LXX para traduzir o verbo  אָהֵב אָהַב  ('āhēḇ 'āhaḇ); do hebraico (cerca de 200 ocorrências). Esse termo em hebraico foi utilizado para descrever o sentimento de Abraão pelo seu filho Isaque (Gn 22;2), o amor de Jacó por Raquel, pelo qual trabalhou sete anos (Gn 29;18), e a amizade profunda de Jonatas e Davi (I Sm 20;17). O verbo traz a ideia do amor incondicional, altruísmo. A maior lei de Deus manda que ao homem O ame mais do que a si mesmo, que considere o Senhor mais importante e digno de atenção e reverência, o principal, o primeiro, a quem todas as coisas devem ser oferecidas primeiramente, em detrimento de si mesmo, a despeito inclusive de faltar para si.
Mas Jesus acrescenta que esse mandamento se traduz, também, numa atitude de amor para com o próximo. Ele cita Lv 19;18, afirmando que amar ao próximo como a si mesmo é o segundo mandamento, semelhante (aquilo que se parece ou é próximo de...) ao primeiro. Os mesmos termos são usados no segundo mandamento de Jesus. A segunda maior lei de Deus é tratar o outro como a si, da mesma maneira que alguém si ama deve amar ao outro, buscar o bem do próximo com o mesmo cuidado e determinação dispensados na busca do bem para si mesmo. A ideia não é “meu direito acaba aonde começa o do outro”, forma passiva, mas “meu dever é o direito do outro”, forma ativa. E mais, essa lei tem uma importância maior. Amar (γαπν) ao próximo é mais importante que todos os outros mandamentos, ficando diretamente abaixo de amar (γαπν) a Deus. Não se pode – não aqui – entender essa passagem de forma simplista. Jesus não está simplesmente resumindo os 10 mandamentos em 2, como sugerida pela explicação clássica – boa e correta, porém curta – de que “amar a Deus...” é o resumo dos 4 primeiros mandamentos e “amar ao próximo...” dos 6 seguintes.
Cristo afirma, peremptoriamente, que estes dois mandamentos são os que dão base a tudo que a Lei (Torah) regulamenta, e por causa deles os Profetas trouxeram julgamento e condenação às nações (Is 1;2).  Provavelmente os fariseus que perguntaram a Jesus qual o maior mandamento, queriam usar a resposta dele como arma para questioná-lo e por fim acusá-lo de falta para com alguma lei ou interpretação da lei (Mc 14;55, Jo 8;6). Eles não estavam interessados em ouvir uma hierarquização da Lei. Mas Cristo frustra seus intentos ao responde-lhe com um conhecimento intrínseco da Lei (Lc 2;47), um conceito pétreo, fundante. O amor (γαπν) a Deus é o princípio da obediência (Jo 14;23). Entretanto, para Cristo, amar (γαπν) ao próximo é tão diretamente entrelaçado com amar (γαπν) a Deus que ele vê a necessidade de responder ao questionamento com afirmações sobre um segundo mandamento semelhante ao primeiro.
O entendimento dessa realidade está espalhado nas cartas paulinas, bem como nas cartas gerais. João coloca essa relação de amar ao próximo como sinal do amor a Deus (I Jo 2;10, 3;10, 4;7,8,20,21), Tiago afirma que uma fé em Deus sem obras é morta, para ele amar a Deus implicava diretamente em amar aos semelhantes. Paulo passa a mostrar o mais excelente dos dons, o amor (γπην), e é evidente que esse amor, poeticamente apresentado, não é para com Deus. O amor ali apresentado é como deve ser a expressão do nosso amor (γπην) para com o próximo.
O amor com que Deus nos amou é o padrão para amarmos uns aos outros. O apóstolo ainda acrescenta que todos os atos feitos sem amor (γπην) são inválidos. Ele não afirma que os atos foram ruins, ou que deveriam ser evitados. Ele afirma que essa liturgia ou religiosidade destituída de amor (γπην) não tem valor nenhum por que está destituída da essência de Deus. Se os atos mais profundos de devoção não contemplarem, em amor, ao próximo, serão como um barulho, um som destituído de sentido e de beleza, que rapidamente torna-se insuportável (Ap 3;16).

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[1] Claro que em algum nível há uma precisão no relato, a questão é que o propósito do texto de Gênesis não reside no esclarecimento da mente humana e sim na revelação do Senhor.
[2] Na aterrorizante experiência do encontro de Deus com Jó, a multidão de inquietantes razões que ele tinha, foram silenciada e transformada em uma assombrosa e calma confissão de fé, “ainda que ele me mate, nEle confiarei”; quando Jesus acalma a tempestade os discípulos percebem admirados quem realmente era Jesus; a acusação apresentada por Deus contra o povo escolhido, registrada no primeiro capítulo de Isaías, trata exatamente disto: o boi conhece o seu dono e o jumento sabe quem o alimenta, mas o povo dele não tem entendimento.
[3] A diferente reside na fé demonstrada pela obediência de Noé ao construir a arca. Esse episódio é tipológico da obediência de Cristo o novo Adão, mas a potência da salvação propiciada pela obediência de Noé não é perfeita em comparação ao sacrifício de Jesus.
[4] As restrições são a espiritualidade e veracidade da adoração prestada a Deus. Independente de qual for a interpretação dos termos, fica claro que para Jesus só esse grupo em particular, que adora em espírito e verdade, são adoradores de Deus (ver Jo 4;24).
[5] Uma referência ao primeiro capítulo. 
[6] Uma referência ao artigo A Etimologia Bíblica do Termo Adoração

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A ETIMOLOGIA BÍBLICA DO TERMO ADORAÇÃO

(O que tem a Bíblia a nos dizer sobre culto)



A acepção encontrada nos dicionários traz por certo que adora e cultuar são, de alguma forma, sinônimos. O Novo Dicionário Aurélio – Século XXI, Edição Eletrônica, 1999, traz as seguintes definições: Adorar v.t. 1. render culto a (divindade). 2. Amar extremosamente. No mesmo dicionário, a definição de culto, é: Culto sm. 1. Adorar ou homenagear a divindade em qualquer de suas formas e em qualquer religião. 2. Modo de exteriorizar o culto, ritual. 3. Veneração, preito. É claro que essas definições apenas mostram que os termos se misturam e que se igualam a ideia do senso comum, “adorar a Deus é prestar-lhe culto”. Entretanto os termos são mais complexos e exigem maior reflexão.

No Novo Testamento uma das palavras que foi traduzida por adorar significa render-se. O termo προσκυνεν e suas cognatas aparecem quase 60 vezes, sempre com o sentido de submissão. O termo, em sua etimologia, tem o sentido de “beijar os pés” ou prostrar-se diante de alguém superior, submeter-se, colocar-se a disposição de outro. Na LXX (versão grega do A.T.), o termo προσκυνεν e suas variantes aparecem em quase 300 passagens, sempre na tradução de vocábulos hebraico que também transmitiam o mesmo conceito de submissão ou rendição.

Existem na Bíblia mais de 5 mil termos associados a algum serviço religioso, culto ou celebração, com certeza sinalizando, dentre outras coisas, a importância bíblica dada à temática culto/adoração. Isso mostra que os autores entendiam a adoração em associações a outros termos que são válidos e imprescindíveis para uma compreensão bíblica verdadeira. Em uma dessas associações terminológicas, adorar está ligado ao servir ou serviço, (λατρεαν), que quando juntada ao vocábulo culto (vide definições aurelianas acima) que vem do latim, cultus, dá sentido a comentar primeiramente o termo λειτουργας, de que origina o vocábulo liturgia, antes de tratar propriamente da λατρεαν (serviço).

Composta de duas palavras gregas, “povo” (λαν) e “trabalho” (ργον), λειτουργας, que significava originalmente pagar sozinho as despesas de um trabalho público, cerimônia ou benfeitoria, voluntariamente ou por obrigação. Passou do uso secular para o religioso, de modo que os eruditos da LXX usaram cerca de 50 vezes o termo ou suas variantes para traduzir os vocábulos hebraicos como עֲבוֹדָה (avodah) פָּלְחָן (polchan)  ligados ao ministério sagrado dos sacerdotes (Ex 38,19, Nm 4;24, I Cr 6;48) de aspergir sangue na tenda e nos utensílios do Templo e o oferecimento diário de sacrifícios, “exercer o serviço” (λειτουργν) sacerdotal.

Entretanto a palavra liturgia, no contexto atual, traz apenas a ideia de cerimônia ou organização cúltica, um cronograma religioso. Na verdade o termo está destituído de seu verdadeiro sentido. No N.T. o apóstolo Paulo usa naturalmente o termo λειτουργν para descrever-se com ministro de Cristo, missionário aos gentios (Rm 15.16). Os líderes da igreja de Antioquia adoravam (λειτουργοντων) ao Senhor (At 13.2) por intermédio de oração, jejum e no ensino à igreja. A ajuda aos carentes da igreja de Jerusalém é chamada de λειτουργας (II Co 9.12). O sacro ofício de Jesus Cristo é um ministério superior (λειτουργας) (Hb 8.6). É correto afirmar que os cristãos cumprem uma “liturgia” quando trabalham pelo bem de seus irmãos, a exemplo de Cristo (Jo 3;4 a 14). O N.T. mostra, em diversos textos, que adoração genuína é “trabalhar” para Deus (At 13), consequentemente trabalhar para a Igreja.

Já o termo λατρεαν surge de λατρων (ordenado) no grego secular foi usado para indicar um trabalho pago e, mais tarde, um trabalho não pago, ou escravo (em hebraico עָבַד – avad  ou δολος em grego). Acrescentando ao conceito de adoração a ideia de uma relação serviçal entre o homem e divindade. Esse termo, reconhecido facilmente no vocábulo “idolatria” (serviço, devoção ou culto a um ídolo), em Atos 7;42, foi utilizado para descrever a atitude de certos israelitas rebeldes que cultuaram (λατρεειν) anjos e (presumidos) seres celestiais. Uma outra utilização é do apostolo Paulo que afirma ser os demônios que dão realidade ao culto (λατρεειν) a ídolos (I Co 10.20), e que Deus re­vela Sua ira contra todos os que idolatram a criatura (Rm 1.25).

O termo também é empregado em contextos positivos. Paulo utiliza-se de λατρεαν, “culto”, para a ideia de serviço santo e agradável (Rm 12;1), vemos o termo ser usado na passagem onde a profetisa Ana servia (λατρεουσα) ao Se­nhor no Templo, numa adoração de jejuns e orações (Lc 2.37), bem como em Hebreus 8;5, 9;9, 10;2, 13;10, se referindo ao culto judaico no Templo. No evangelho segundo Mateus, Jesus, também usa o termo λατρεαν pa­ra responder ao diabo (4;10) afirmando que somente Deus era digno desse serviço. Em Apocalipse, o apóstolo João descreve uma multidão que serve ou adora a Deus (λατρεουσιν) incessantemente (Ap 7;15). A λειτουργας [1], em que Je­sus se ofereceu foi para que os adoradores tivessem consciências limpas para poder servir (λατρεειν) ao Deus vivo (Hb 9;14).

No V.T. especialmente em Êxodo, Deuteronômio, Josué e Juízes o termo foi empregado com fre­qüência (90 vezes) na LXX sempre com a ideia de cultuar e de adorar a Deus (Ex 4;23, 8;1,20, 9;1, Ez 20;32, etc).

Outro conceito utilizado no grego bíblico, vinculado ao assunto é o σεβεας (reverenciar). O vocábulo consta em 25 passagens e no original transmite a ideia de um homem religioso devotado a seus deuses que faz tudo para evita o azar, identificado com desfavorecimento ou castigo da parte de um deus (At 17). É a obediência a divindade pelo temor, respeito pela sua autoridade.

Mateus e Marcos citam a versão grega (LXX) de Isaías 29;13: “Em vão me ado­ram (σβοντα), ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15;9; Mc 7;7). Em Romanos 1;25, aparecem paralelamente os termos σεβσθησαν e λτρευσαν para apontar a religiosidade dos pagãos, “adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador”.  No evangelho segundo João, lê-se; Deus não atende a pecadores, mas pelo contrário se alguém teme a Deus (θεοσεβς) e pratica sua vontade, a este atende (Jo 9;31).

No VT, o termo aparece mais 4 vezes, todas na LXX. Em Ex 18;21, Jetro sugere a escolha de lideres, tementes a Deus (no texto a ideia é associada a homens que, também, não sejam corruptos), para julgar as causas mais simples do povo e ajudar Moisés na direção da nação. O termo também é utilizado para descrever a fidelidade de Jó (Jó 1;1,8 e 2;3).

A negação ou a falta de reverência, σβειαν aparece cerca de 70 vezes para traduzir termos com פֶּשַׁע  (pesha) ou רֶשַׁע  (resha) ou תֹּעֵבָה תּוֹעֵבָה  (toevah) – impiedade, irreverência, maldade ou culpa por desobediência . O termo é posto lado a lado com injustiça (Rm 1;18).  Já em II Tm 3;12, outra variante é usada, nesse caso para descreve um grupo disposto a viver reverentemente ou piedosamente (εσεβς) em Cristo Jesus, mesmo sendo perseguidos.

Ainda teríamos o termo θρησκεας, que só aparece seis vezes no N.T. (At 26;5, CI 2;18,23, Tg 1;26,27) e pode sempre ser entendido como religião ou religiosidade, embora tenha sido usado o termo adoração, na tradução de Colossenses 2;18, para descrever o ato religioso de reverenciar a anjos. Não há grande diferença entre o sentido deste vocábulo e o de λατρεαν, sendo que ambos tratam do culto oferecido a divindade na sua expressão externa. O termo (θρησκεας) nesses textos trata da observação da adoração na vida prática, no dia-a-dia: controlar a língua, cuidar dos órfãos e das viúvas em suas tribulações, etc.

De fato, as ideias associadas aos termos adoração e culto, estão mais ligadas ao estado em que adorador se apresenta a Deus do que onde e quando ele apresenta ao Senhor. Embora no vernáculo os termos adoração, culto, liturgia, serviço religioso, reverência e religião, acabaram se misturando e no senso comum eles são considerados sinônimos, é correto afirmar que a cerne da ideia religiosa de reverência cúltica biblicamente estabelecida (lê-se adoração bíblica) é apropriadamente ligada a uma relação de escravo e senhor, essa relação é bastante significativa para definir a adoração que devemos prestar a Deus. Submissão e serventia são as definições mais acertadas para a adoração.




[1] O termo não aparece no texto de Hb 9;14, entretanto está ligado ao ofício de Cristo.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Teologia da Adoração (parte I)

Apresentarei no marcador “Tese” a minha tese de ordenação, apresentada em 2007 ao dileto presbitério de Taguatinga-DF. É importante salientar que essa tese sofreu muitas alterações e ainda não está acabada – se que um dia vou conseguir acabá-la. Outras explicações darei na medida em que eu julgar necessário. Segue o texto:

“Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”, disse Jesus certa vez. Cabe-se, então, sem prejuízo moral, ético ou espiritual, uma análise, fria e fiel, dessa afirmação e sua pertinência na Igreja do séc.XXI. É dessa possibilidade verdadeira, dessa necessidade real e dessa oportunidade à porta, que surgem estes textos. A pretensão é, na análise das formas, conceitos e motivos da celebração cristã, estabelecer relações entre as experiências da atualidade e a conceituação do pensamento reformado.

Deus criou todas as coisas para o louvor da sua glória (cf. III, item V da Confissão de Fé de Westminster, doravante apenas CFW), adorá-lO, mesmo na presente ordem, após a queda e expulsão do Éden, é, ainda, o maior dever de todos os seres humanos. Portanto, debater esse tema – trazer à luz da razão[1] – torna-se algo mais que apropriado. Deve-se oferecer a Deus, um culto racional (Rm 12;1), afinal tudo que tem vida deve louvar ao Senhor (Sl 150;6) que é digno de receber, a glória, a honra e o poder (Ap 4;11). Se Deus procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4;23), é, não só justificado, como imprescindível, descobrir como ser parte desse grupo de adoradores.

Nos post seguintes, serão apresentados conceitos e valores da teologia reformada. As argumentações serão baseadas, tão somente, no entendimento derivado, abstraído, observado e descrito na Bíblia. Não se fazendo, portanto, apologia a algum conceito, livro ou pensador. O único comprometimento assumido nesses textos é com o “supremo juiz de todas as controvérsias, em matérias religiosas, o Espírito Santo falando na e pela Escritura” (CFW, pág. 11, anotações de John M. Kyle – com alterações).
 
A metodologia utilizada será o discursivo-interpretativo, baseados nos pressupostos confessionais reformados e nos símbolos de fé da Igreja presbiteriana do Brasil[2]. A orientação textual foi extraída do grego[3]. No V.T a Septuaginta (LXX) segundo o padrão da Edição Rahlfs (Sociedade Bíblica Alemã) conjuntamente com os textos revisados da Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS). Para o N.T. foi utilizado o consagrado NA27[4]. Os textos bíblicos em português, seja os versículos ou apenas as suas reverências, salvo em alguma indicação direta, serão sempre os da NVI (Nova Versão Internacional) que é hoje a melhor tradução existente na língua portuguesa.

As fontes da pesquisa são livros consagrados que versam sobre adoração, louvor, liturgia e culto, e vários artigos de grande circulação nos meios acadêmicos, constando na bibliografia o endereço eletrônico para futuras pesquisas. Uma gama variada de autores foi estabelecida, uns já falecidos – óbvio – visto que o tema já há muito é discutido. Alguns autores nacionais de grande capacidade intelectual e aceitabilidade inquestionável, também foram objetos de pesquisa, provando que o tema é importante, também, para os pensadores tupiniquins. E, claro, alguns teólogos do exterior que tratam desse tema também foram consultados.
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[1 Para justificar a necessidade de trazer a luz da razão, aquilo que é eminentemente da fé, sugiro a leitura de alguns livros, Em busca de uma cosmovisão cristã, ed. Monergismo, Por que sou Cristão? Ed. Cultura Cristã. [2] Isso me isenta da responsabilidade de ser escolástico, mas não me liberta da religião, não sou um livre pensador e nem um teósofo, também não penso em apologia cristã e sim em cumprir o papel a mim conferido, o de presbítero docente.[3] Ler o V.T. pela ótica lingüística do grego, justifica-se pois foram os textos da LXX que os autores do N.T. usaram nas citações e alusões ao V.T. Isso definitivamente valida sua a utilização.[4] Novum Testamentum Graece Nestle-Aland, 4ª Edição.